Aug 20 2010

Veríssimo

— Beleza, a sua cozinha.
— Obrigado, eu…
— É você quem cozinha sempre ou…
— Não, não. Tem uma senhora que vem arrumar o apartamento sempre e deixa um prato feito na geladeira. Sou cozinheiro de fim de semana. Marinheiro de… Como é mesmo que se diz?
— O quê?
— Doce.
— Eu?
— Água doce. Marinheiro de água doce. Você quer esperar na sala, enquanto eu…
— Fico aqui com você. A menos que…
— Não, pode ficar. Quem sabe a gente já abre o vinho e fica bebericando, enquanto eu…
— Adoro bebericar. Uma beleza, o seu abridor.
— Obrigado. Este vinho precisa respirar um pouco antes de ser servido. Pode parecer bobagem mas…
— Não, não. Respirar é das coisas mais importantes que existem.
— Ele precisa estar na temperatura ambiente.
— Adoro a temperatura ambiente.
— Você está disposta a experimentar o meu bobó?
— O seu…
— Bobó de camarão. Minha especialidade.
— Ah, claro. Não foi para isso que você me convidou? Adoro bobó.
— Você já comeu alguma vez?
— Nunca. Mas adoro.
— Olha o vinho.
— Mmmmm.
— Hein?
— Eu disse “Mmmmm”… Epa!
— Desculpe. Estou um pouco nervoso. Sabe como é, a responsabilidade. Você pode não gostar do meu…
— Bobo.
— Bobó.
— Bobo é você. Vou adorar o seu bobó.
— Será que o vinho vai manchar o seu vestido?
— Não. Em todo o caso…
— Quem sabe um pano com água quente? É só esquentar a água e…
— Adoro tudo o que é quente. Uma beleza a sua chaleira.
— Enquanto isto, vou preparando os ingredientes. Deixa ver. Pimentinha…
— Sim?
— Não, eu disse “pimentinha”.
— Não me diz que leva pimenta!
— Leva. Você não gosta?
— Adoro!
— É da braba.
— Ui! Você, hein? com esse jeito tímido… Só de ouvir falar em pimenta, fiquei toda arrepiada. Passa a mão aqui…
— É mesmo. Que estranho. Só de ouvir falar em pimenta…
— Mal posso esperar o seu bobó.
— Calma, calma.
— Demora muito?
— Se você me der uma mão… Na geladeira, na parte de baixo, estão os camarões… Você vai ter que se abaixar um pouco e…
— Beleza a sua geladeira. Foi você que assobiou?
— Não, foi a minha chaleira. Mas…
— Sim?
— Eu concordo com ela.
— Mmmmm…


Jan 8 2010

Quase

Ainda pior que a convicção do não, é a incerteza do talvez, a desilusão de um quase!

É o quase que me incomoda, que entristece, que mata trazendo tudo o que poderia ter sido e não foi! Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escapam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca saíram do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me às vezes o que nos leva a escolher uma vida morna. A resposta eu sei de cor: está estampada na distância e na frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos ¨bom dia¨ quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz.

A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai; talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio-termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma; apenas amplia o vazio que cada um tem dentro de si.

Não é que a fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance; para as coisas que não podem ser mudadas, resta-nos somente paciência. Porém, preferir a derrota prévia à duvida da vitória, é desperdiçar a oportunidade de merecer.

Para os erros há perdão, para os fracassos chance, para os amores impossíveis tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo o fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você, gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando.

Porque embora quem quase morreu ainda vive, quem quase vive já morreu.

Sarah Westphal

Nov 26 2009

“Se minhas loucuras tivessem explicações, não seriam loucuras”.

Nietzsche


Oct 24 2009

Smart Clothes (repost)

catarina3

Incríveis as novidades que as novas tecnologias nos trazem, e uma das bases dessa revolução que afeta todos os mercados, inclusive a moda, é a interatividade.

Ela está na tecnologia da tv digital, em celulares que trocam arquivos, nas mídias externas, nos palms nas mãos de garçons, nos gps´s dos carros, nos acessórios, nas roupas; a interação está cada vez mais presente em nossa vida, principalmente na internet. Veja o exemplo da chamada web 2.0: blog´s, wikis, comunidades, novos serviços, enfim, uma nova forma de expressão está sendo criada, onde a interação e a colaboração entre as pessoas é que constrói os conteúdos. E isto está se expandindo para além dos limites digitais.

É um novo tipo de comportamento surgindo aos poucos, onde a coletividade tem papel fundamental, onde a opinião de todos importa e as diferenças individuais são preservadas. É mover-se em grupo, preservando as identidades. É o comportamento “2.0″. Ele pode ser visto nos vídeos criados e postados no YouTube, nas músicas do LastFm, nas propagandas da tv (veja o comercial “Ford Human Car”), na nova cara da Mtv, nos iPhone´s tão cobiçados, enfim; o novo agora é “quem importa é você” e “você faz do seu jeito!”.

Pensando em uma relação com a moda, esta tendência de interatividade com os outros e com o mundo também pode ser vista nas smart clothes, as roupas inteligentes que reagem com o ambiente, com o humor, as emoções e os sentimentos de quem as está vestindo. Estas peças interagem com você, em uma forma de expressão individual; e com os outros, porque tem sempre como objetivo comunicar algo, para alguém. Ao vestir uma peça que expresse algo, como leds que acendem de acordo com o nível de excitação e entusiasmo, você pode estar economizando palavras, mas ainda assim estará enviando uma mensagem para o mundo, para alguns, ou para alguém.

E porquê temos essa necessidade? Porque precisamos da opinião dos outros, precisamos saber se estamos certos, se somos aceitos; precisamos encontrar pessoas que nos escutem, com as quais possamos dividir o que pensamos e como nos sentimos. Porque somos construídos pelo social, pelas nossas relações com os outros, e constantemente necessitamos de uma aprovação subjetiva que nos diga quem somos, que nos reconheça.

Faça uma comparação e observe como as pessoas contam sua vida no ambiente digital, principalmente no Messenger. Perceba os nicks de seus amigos, as palavras colocadas ali, e como as pessoas as utilizam para compartilhar por exemplo, como se sentem (“Bruna – cansada…), onde estão (“Paulo – almoçando no clube…”), para onde vão (“Ana – Hoje, praia e balada”), de quem gostam (“Ju – saudades do André”), o que lêem (“Cris – Acredite e o universo vai conspirar…”), o que escutam e em que acreditam; definem-se em frases absurdas e clichês, contam suas vidas, suas emoções. Ou seja, tudo aquilo que possa ser direcionado para alguém (caso contrário, não estaria ali).

Chegaríamos a este ponto com as smart clothes? O que mostraríamos? Seria possível controlar as expressões de nossas roupas como as frases do Msn, ou elas simplesmente reagiriam de acordo com nossas emoções? Peças sensacionais seriam criadas, mas imagine-se vestindo uma camisa que expressa seus sentimentos, em uma festa na qual você poderia odiar estar; ou esposas obrigando seus maridos a vestirem “smart-cuecas”, para saber o que estes sentem quando estão com elas (e vice-versa); patrões determinando tipos de uniformes para seus empregados, que mostram a disposição destes para o trabalho; ou namorados brigando por roupas que entregam os verdadeiros sentimentos.

As novas tecnologias trazem uma gama enorme de novidades, e o conceito de emotional clothing certamente trará inúmeras aplicações para o mercado da moda, criando novas possibilidades de criação e expressão. Porém, é complicado prever as consequências para o futuro.

Por falta (ou medo) de colocarmos o que sentimos em palavras, recalcamos tantas coisas que estamos sempre buscando novas formas sublimar nossas emoções. Portanto caro leitor, não se assuste se em breve você encontrar pessoas vestidas como messengers ambulantes pelas ruas.

Quando este dia chegar, o melhor é estar appear off-line.

*Artigo publicado na edição de outubro de 2008 da Revista Catarina. Texto de autoria de Diogo Scandolara  -  Copyright © 2009 scandolara.com.br

Oct 17 2009

Luis Fernando Veríssimo

“A verdade é que a gente não faz filhos. Só faz o layout. Eles mesmos fazem a arte-final.”

“Dezessete é um número cabalístico e, sendo cabalístico, eu não posso revelar. Brincadeira, não tem nenhum significado. Dezessete é uma palavra bonita”. (Ao ser perguntado por que costuma o número dezessete tantas vezes em suas crônicas)

“Só acredito naquilo que posso tocar. Não acredito, por exemplo, em Luiza Brunet”.

“Escrevi uma vez que era um cético que só acreditava no que pudesse tocar: não acreditava na Luiza Brunet, por exemplo. Cruzei com a Luiza Brunet num dos camarotes deste carnaval. Ela me cobrou a frase, e disse que eu podia tocá-la para me convencer da sua existência. Toquei-a. Não me convenci. Não pode existir mulher tão bonita e tão simpática ao mesmo tempo. Vou precisar de mais provas.”


Aug 21 2009

“Um dia, quando olhares para trás, verás que os dias mais belos foram aqueles em que lutaste.”

Sigmund Freud


Aug 21 2009

Veríssimo

E tudo mudou…

O rouge virou blush
O pó-de-arroz virou pó-compacto
O brilho virou gloss

O rímel virou máscara incolor
A Lycra virou stretch
Anabela virou plataforma
O corpete virou porta-seios
Que virou sutiã
Que virou lib
Que virou silicone

A peruca virou aplique, interlace, megahair, alongamento
A escova virou chapinha
“Problemas de moça” viraram TPM
Confete virou MM

A crise de nervos virou estresse
A chita virou viscose.
A purpurina virou gliter
A brilhantina virou mousse

Os halteres viraram bomba
A ergométrica virou spinning
A tanga virou fio dental
E o fio dental virou anti-séptico bucal

Ninguém mais vê…

Ping-Pong virou Babaloo
O a-la-carte virou self-service

A tristeza, depressão
O espaguete virou Miojo pronto
A paquera virou pegação
A gafieira virou dança de salão

O que era praça virou shopping
A areia virou ringue
A caneta virou teclado
O long play virou CD

A fita de vídeo é DVD
O CD já é MP3
É um filho onde éramos seis
O álbum de fotos agora é mostrado por email

O namoro agora é virtual
A cantada virou torpedo
E do “não” não se tem medo
O break virou street

O samba, pagode
O carnaval de rua virou Sapucaí
O folclore brasileiro, halloween
O piano agora é teclado, também

O forró de sanfona ficou eletrônico
Fortificante não é mais Biotônico
Bicicleta virou Bis
Polícia e ladrão virou counter strike

Folhetins são novelas de TV
Fauna e flora a desaparecer
Lobato virou Paulo Coelho
Caetano virou um chato

Chico sumiu da FM e TV
Baby se converteu
RPM desapareceu
Elis ressuscitou em Maria Rita?
Gal virou fênix
Raul e Renato,
Cássia e Cazuza,
Lennon e Elvis,
Todos anjos
Agora só tocam lira…

A AIDS virou gripe
A bala antes encontrada agora é perdida
A violência está coisa maldita!

A maconha é calmante
O professor é agora o facilitador
As lições já não importam mais
A guerra superou a paz

E a sociedade ficou incapaz… De tudo.

Inclusive de notar essas diferenças

Luis Fernando Veríssimo

Jul 11 2009

A raposa

“Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que  cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música [...]“.

Antoine de Saint-Exupéry (O pequeno príncipe).

Jul 8 2009

Dicas para escrever

Esta é clássica, mas sempre é bom lembrar algumas dicas para escrever bem:

1- Conforme recomenda a A.G.O.P., nunca use siglas desconhecidas.

2- Deve evitar ao máx. a utiliz. de abrev., etc.

3- É desnecessário fazer-se empregar de um estilo de escrita demasiadamente rebuscado. Tal prática advém de esmero excessivo que beira o exibicionismo narcisista.

4- Evite lugares-comuns como o diabo foge da cruz.

5-  Evite repetir a mesma palavra, pois essa palavra vai ficar repetitiva. A repetição da palavra vai fazer com que a palavra repetida desqualifique o texto onde se encontra repetida.

6- Evite frases exageradamente longas, pois estas dificultam a compreensão da idéia nelas contida e, por conterem mais que uma idéia central, o que nem sempre torna o seu conteúdo acessível, forçam, desta forma, o pobre leitor a separá-la nos seus diversos componentes de forma a torná-las compreensíveis.

7- Estrangeirismos estão out; palavras de origem portuguesa estão in.

8- Evite o emprego de gíria, mesmo que pareça hype!

9- Evite mesóclises. Repita comigo: “mesóclises: evitá-las-ei!”

10- Exagerar é cem milhões de vezes pior do que a moderação.

11- Não abuse das exclamações! Nunca!!!

12- Nunca generalize: generalizar é um erro em todas as situações.

13- Não seja redundante, não é preciso dizer a mesma coisa de formas diferentes; isto é, basta mencionar cada argumento uma só vez; ou por outras palavras, não repita a mesma ideia várias vezes.

14- Seja mais ou menos específico.

15- Não fique escrevendo no gerúndio. Você vai estar deixando seu texto pobre e estar causando ambiguidade; vai estar deixando o conteúdo esquisito, e vai estar ficando com a sensação de que as coisas ainda estão acontecendo.


May 8 2009

Veríssimo

Brincadeira

Começou como uma brincadeira. Telefonou para um conhecido e disse:
- Eu sei de tudo.
Depois de um silêncio, o outro disse:
- Como é que você soube?
- Não interessa. Sei de tudo.
- Me faz um favor. Não espalha.
- Vou pensar.
- Por amor de Deus.
- Está bem. Mas olhe lá, hein?

Descobriu que tinha poder sobre as pessoas.
- Sei de tudo.
- Co-como?
- Sei de tudo.
- Tudo o quê?
- Você sabe.
- Mas é impossível. Como é que você descobriu?

A reação das pessoas variava. Algumas perguntavam em seguida:
- Alguém mais sabe?
Outras se tornavam agressivas:
- Está bem, você sabe. E daí?
- Daí nada. Só queria que você soubesse que eu sei.
- Se você contar para alguém, eu…
- Depende de você.
- De mim, como?
- Se você andar na linha, eu não conto.
- Certo.

Uma vez, parecia ter encontrado um inocente.
- Eu sei de tudo.
- Tudo o quê?
- Você sabe.
- Não sei. O que é que você sabe?
- Não se faça de inocente.
- Mas eu realmente não sei.
- Vem com essa.
- Você não sabe de nada.
- Ah, quer dizer que existe alguma coisa para saber, mas eu é que não sei o que é?
- Não existe nada.
- Olha que eu vou espalhar…
- Pode espalhar que é mentira.
- Como é que você sabe o que eu vou espalhar?
- Qualquer coisa que você espalhar será mentira.
- Está bem. Vou espalhar.
Mas dali a pouco veio um telefonema.
- Escute. Estive pensando melhor. Não espalha nada sobre aquilo.
- Aquilo o quê?
- Você sabe.

Passou a ser temido e respeitado. Volta e meia alguém se aproximava dele e sussurrava:
- Você contou para alguém?
- Ainda não.
- Puxa. Obrigado.
Com o tempo, ganhou reputação. Era de confiança. Um dia, foi procurado por um amigo com uma oferta de emprego. O salário era enorme.
- Por que eu? – quis saber.
- A posição é de muita responsabilidade – disse o amigo. Recomendei você.
- Por quê?
- Pela sua discrição.
Subiu na vida. Dele se dizia que sabia tudo sobre todos, mas nunca abria a boca para falar de ninguém. Além de bem informado era gentleman.

Até que recebeu um telefonema. Uma voz misteriosa que disse:
- Sei de tudo.
- Co-como?
- Sei de tudo.
- Tudo o quê?
- Você sabe.

Resolveu desaparecer. Mudou-se de cidade. Os amigos estranharam o seu desaparecimento repentino. Investigaram. O que ele estava armando? Vieram muitos carros e cercaram a casa. Várias pessoas entraram na casa. Ouviram-se gritos. Os vizinhos contam que a voz que mais se ouvia era a dele, gritando:
- Era brincadeira! Era brincadeira!
Foi descoberto de manhã, assassinado. O crime nunca foi desvendado.

Mas as pessoas que o conheciam não têm dúvidas sobre o motivo.
Sabia demais.

[Luis Fernando Veríssimo]


Apr 22 2009

A culpa é do Outro! (repost)

guilty1 A culpa é do Outro! (repost)

Compreender o grande universo que é a moda nos traz inúmeras perspectivas de abordagens, e certamente uma das que mais levanta questionamentos por parte de profissionais e consumidores é quando discute-se sobre o poder e a influência daquilo que cria desejo e nos faz assimilar novas idéias e conceitos.

E um dos argumentos mais utilizados e discutidos pelos críticos vorazes, é que a mídia, a publicidade e a moda são os grandes responsáveis por diversos problemas que afetam as pessoas, principalmente sobre a noção que estas possuem sobre sua imagem corporal: um ideal impossível de alcançar graças ás regras de corpos magros e de roupas que não são feitas para as pessoas “comuns”, impostas por modelos criados por aqueles que decidem como muitos irão se vestir.

Para estes críticos, o consumismo, a anorexia, os problemas de imagem, a falta de aceitação e de posicionamento social, dentre outros transtornos que lotam as salas de psicólogos e psiquiatras, são resultados desta indústria famigerada da moda que influencia cada vez mais as pessoas a usarem o que não querem e a serem aquilo que não podem ser. Argumentam que sequer sabem quais são seus desejos uma vez que estes são impostos, que há uma submissão coletiva às regras de tendências, que são inconscientemente influenciados pela publicidade, pela tv, pelas capas de revistas, pelos desfiles, blá-blá-blá.

Argumentam que não podem reagir, que não são culpados e responsáveis por seus problemas, e que são apenas vítimas. Ou seja, que a culpa é do Outro.

Obviamente não serei hipócrita de negar a influência destes meios na decisão de compra das pessoas, isto é óbvio e as discussões sobre este assunto são muitas e cansativas; porém o que pouco discute-se é sobre a dificuldade que temos para assumir a responsabilidade sobre nossas próprias decisões, e sobre as conseqüências que estas nos trazem. Para tanto, e para traçarmos um paralelo com a moda, necessitamos pensar a respeito do que cada um de nós considera, ou não, belo.

A moda está diretamente ligada á concepção de beleza e este conceito é muito diferente para cada pessoa. Muito do que consideramos belo hoje vem de nossa construção de vida, de como neste tempo todo nos relacionamos com a beleza (ou com a possível falta dela) durante o desenrolar de nossa história pessoal, principalmente na infância e no que veio depois, períodos fundamentais na construção da personalidade. Por exemplo, se você passou a adolescência toda sentindo-se feia e rejeitada (o que é comum para a fase), isto poderia ser simplesmente uma resposta ao seu ambiente, sua família, seus amigos, etc. Inúmeras possibilidades. Porém, o que pode ficar até hoje, é uma aversão á beleza, á moda.

Eis que ao criticar, ao posicionar-se contra e gritar para os céus que odeia este “mundinho”, muitos estão simplesmente encontrando saídas para devolver um pouco da raiva que tanto sentiram por se considerarem “diferentes”, e que carregam até hoje.

Muitos ao criticar, fingem esquecer de suas vaidades, de seus vícios, de suas compensações; fingem esquecer que quando entram em um shopping também lançam-se desenfreadamente atrás da mesma moda que tanto ajudam a criticar, e que tanto ajuda a tapar seus buracos narcisistas. Fingem porque isso implica em envolver-se como responsável pelas merdas que acontecem, uma vez que é muito mais fácil e cômodo deslocar a culpa para alguém ou para um “sistema” maldoso que os empurra para o consumo.

Porém o que fingem não saber, é que este sistema foi construído por eles, por seus pais, por um histórico de gerações; ou seja, pelo social. É o resultado de uma sociedade, onde todos são implicados; e a moda é, como tantas vezes antes, um reflexo deste determinado momento na história onde tudo é acessível, mutável.

Enfim, o que a moda mostra vai além de simples imagens e conceitos, cujo objetivo final sempre é o consumo; vai além das passarelas, das capas das revistas, dos outdoors e das campanhas publicitárias. Ela desloca e cria emoções, atrai o olhar do outro, preenche espaços. Ela funciona como um espelho que reflete muitos aspectos de nossa sociedade, de nossa vida.

E isso muitas vezes incomoda, porquê sempre acreditamos que poderíamos ter feito melhor, poderíamos ter sido menos encanados, que poderia ter sido diferente.

Portanto caro leitor, ao ouvir uma crítica, saiba que as palavras vão além de seus sentidos aparentes. Carregam sempre algo mais, algo pessoal.

Muitos dos que criticam, buscam encontrar um certo alivio ilusório para suas questões. Acreditam serem vítimas da mídia, da publicidade, porque assim não se sentem implicados. Porque crêem que deste modo se sentirão melhores, e poderão levantar suas bandeiras contra esta moda malvada que tanto os faz consumir.

Porquê para eles, a culpa sempre é do Outro.

*Artigo publicado na edição de três anos da Revista Catarina.


Apr 14 2009

Megalomania

Contam que Lindaura, a recepcionista do analista de Bagé (segundo ele, “mais eficiente que purgante de maná e japonês na roça”), desenvolveu um método para separar os casos graves dos que são só – como diz o analista de Bagé – “loucos de faceiros”.

Enquanto preenche a ficha, ela dá a cada paciente em potencial uma cuia de chimarrão no formato de um seio. Depois vai anotando: “Quis chupar a cuia em vez da bomba”, “começou a gemer e acariciar a cuia”, “atirou contra a parede”, etc. Assim, quando recebe o paciente, o analista de Bagé já sabe o que esperar. Mas nada preparou o analista de Bagé para a entrada no seu consultório do megalômano de Carazinho. O diálogo entre os dois já começou mal.

- Te deita no divã. – Não deito.
- Te deita, bagual! – Não deito!
- E por que não deita?
- Em primeiro lugar, porque só quem mandava em mim era o meu pai, que já está no Grande Galpão do céu capando anjo pra fazer linguiça. Em segundo lugar, que o analista aqui sou eu.
E com isto o analista de Bagé derrubou o outro com um peitaço e o segurou sobre o pelego do divã com um joelho na omoplata. Gritou:
- Diz qual é teu problema!
- Não digo pra qualquer um!
- Diz senão te arranco esses bigodes dois a dois.
- Todos dizem que eu tenho mania de ser melhor do que os outros, mas eu não acredito neles.
- E por que não?
- Porque é tudo gente inferior.

O analista de Bagé saiu de cima do outro, mas deixou o facão bem à vista, para evitar incomodação. O outro continuou.

- Eu tenho megalomania.
- Não tem – disse o analista de Bagé, brabo. Sabia que era verdade, mas não aguentava fanfarrão.
- Quer saber mais do que eu?
- Sei mais do que tu, teu irmão, tua mãe e teu pai, se fosse conhecido.
Nisso o megalômano de Carazinho subiu em cima do divã, apontou um dedo para o analista de Bagé e ameaçou:
- Olha que eu te transformo em pedra.
O analista de Bagé abriu a camisa e ofereceu o peito:
- Pois transforma. Quero ver. Transforma!
O outro mudou de tática. Ergueu a mão como numa bênção e disse:
- Eu te perdôo.
Aí o analista de Bagé avançou.

Na sala de espera, Lindaura esperou meia hora antes de entrar no consultório. Tinha ordens do analista de Bagé sobre como agir de acordo com os sons que ouvia. “Resfolego, não liga. Gemido, vai pra casa. Grito, te prepara. Mobília quebrada, entra.” Decidiu entrar. Encontrou o megalômano de Carazinho inconsciente embaixo do divã virado, com só metade do bigode. Depois o analista de Bagé explicou:
- Doença é uma coisa. Convencimento é outra.
O outro era “metido a gran cosa”. Mas ele perdera mesmo a paciência quando ouvira o outro dizer:
- Sou o maior megalômano do mundo!
Aparecia cada um.

{O Analista de Bagé, Luis Fernando Veríssimo.}


Mar 25 2009

Veríssimo

Brindes

Marcos e Nádia, Paulo e Andréa.

Jantar na casa de Marcos e Nádia para comemorar a reconciliação de Paulo e Andréa. Os quatro na sala, depois do cafezinho. Marcos e Paulo, conhaque; Nádia e Andréa, licor.

Marcos:
— E então?
Paulo e Andréa coxa a coxa no sofá. Mãos dadas. Paulo, rindo:
— Então o quê?
— Tudo na mais perfeita?
Paulo mostra as mãos dos dois entrelaçadas.
— Olha só.
Andréa:
— Não largo mais desta mão.
Em seguida larga, para ajeitar o cabelo.
— E vocês? — pergunta Andréa.
Marcos e Nádia se entreolham.
— Nós? — diz Nádia. — Muito bem. Maravilha.
— Como a gente briga por bobagem, não é mesmo? — diz Paulo. —Coisas pequenas. O que um diz ou deixa de dizer. Bobagens. O importante é isto aqui.
Mostrando a mão.
— A aliança.
— Não, a pele. O importante é a pele. Uma pele contra a outra. Se é bom, é porque é certo.
Marcos propõe:
— Um brinde à pele.
— À pele.
— À pele.
— À pele.
Nádia:
—  Em nome de todas as mulheres aqui presentes, proponho um brinde aos homens.
— Principalmente aos peludos.
Uma referência à quantidade de pêlos que cobrem o corpo de Paulo.
— Aos pêlos — reforça Nádia.
— Aos pêlos.
— Aos pêlos.
— Aos pêlos.
É a vez de Paulo propor um brinde.
— As mulheres, principalmente às nossas.
Marcos acrescenta:
— Às suas calcinhas penduradas no banheiro.
— Às calcinhas.
— Às calcinhas.
Nádia não brinda às próprias calcinhas. Propõe uma alternativa.
— Aos homens que não jogam nenhum papel fora.
Marcos propõe outro:
— À tolerância. Às mulheres que aceitam seus maridos como eles são.
Nádia:
— A todas as mulheres do mundo que precisam encontrar espaço para guardar os papéis que seus maridos não jogam fora.
Paulo tenta mudar o rumo dos brindes e sugere:
— Ao amor.
Mas Nádia não se contém.
— Anúncio de telepizza. Vocês acreditam? Anúncio de telepizza!
— O quê?
— Esses volantes que distribuem na rua. Ele não consegue jogar fora.
— Não é bem assim… — tenta Marcos.
— E eu que encontre lugar para guardar.
Marcos contra-ataca.
—  E a minha coleção da Placar? Desde o primeiro número. Você jogou no lixo.
— Porque precisava do espaço no armário! Pra pendurar roupa!
— Para as suas calcinhas eu sei que não era. Essas você pendura no banheiro.
Nádia ergueu seu copo de licor ainda mais.
— Às mulheres de maníacos de todo o mundo.
Marcos:
— A todos os maníacos incompreendidos!
Paulo bate na perna de Andréa.
— Está na hora de ir dormir.
***
Depois, na cama, Paulo comenta com Andréa:
— Acho que com o Marcos e a Nádia, ó… Está faltando isto. Pele.
Ele alisa com a mão a parte carnuda do braço de Andréa.
— Sei não — diz Andréa. — Anúncio de telepizza…
— Qual é o problema?
— Francamente, Paulo.
— Não, qual é o problema?
(VERÍSSIMO, Luis Fernando, Sexo na Cabeça, Objetiva, 2002)

Feb 27 2009

A Plástica

dummy 150x150 A Plástica

No início deste ano um assunto envolvendo uma ministra do governo ocupou inúmeras capas de jornais e revistas; desta vez porém, o escândalo foi estético.

A ministra da Casa Civil, Dilma Roussef (candidata do governo à Presidência) resolveu adotar um novo visual e realizou uma cirurgia plástica no rosto, mais especificamente na região dos olhos, segundo seus assessores. Este fato mobilizou rapidamente a imprensa, e foi grande a correria para fotografar o novo rosto, saber o que ela tinha feito, onde foi e quanto custou, etc. Homens e mulheres se interessaram, médicos explicaram, a curiosidade tomou conta do Planalto, e a pauta foi essa: “o que fez Dilma”?

Todo esse alvoroço em torno do assunto trouxe de volta a discussão sobre o tema das cirurgias plásticas, estas imensamente consagradas em nosso país (a ponto de existirem consórcios para tal), desejadas por milhares de mulheres, e atualmente, por homens de diversas idades. Novas técnicas são criadas e difundidas, surgem clínicas por todos os cantos, e o Brasil é o segundo país que mais faz plásticas no mundo, perdendo somente para os Estados Unidos.

Este fato desperta tanto interesse a ponto de ser incessantemente abordado, principalmente pela mídia; basta dar uma olhada na quantidade de programas que abordam o assunto (Dr. Hollywood, Extreme Makeover, etc) para percebermos como o assunto atrai a atenção do público.

As explicações por tanto interesse pela estética corporal e pelas cirurgias plásticas surgem de diversos campos (e cantos). Os mais reducionistas dirão que é apenas a eterna curiosidade humana, que atrai os olhares para o novo, para aquilo que chama a atenção; outros dirão que esta é a estética do momento, quando todos podem ser como sempre sonharam e a liberdade individual é o que importa; ou ainda, que é uma questão de beleza e outros tantos argumentos clichês.

Porém, um fato que pouco percebemos (ou fingimos não perceber), é que somos eternamente insatisfeitos, e vivemos preenchendo buracos em nossas vidas para nos sentirmos melhores. E o corpo, muitas vezes é fonte de escape desta expressão interior.

Preenchemos buracos quando estamos tristes e comemos ou bebemos demais; preenchemos buracos quando gastamos em um shopping, quando substituímos um amor por outro; quando compramos um novo carro, uma jóia ou nos submetemos a  cirurgia plástica. Queremos sempre estar bem perante um Outro, sermos invejados e desejados, assim como desejamos e invejamos (muitas vezes inconscientemente) aquilo que queremos, mas não podemos ter.

Como hoje não basta somente ter, é necessário parecer, imaginem o estrago que faz em alguém encarar uma lipoaspiração e depois ninguém fazer um elogio ou perceber alguma mudança? Ou novos seios que não são notados? Isso traria prováveis problemas… E por que? Porque são os outros que nos trazem a confirmação de que acertamos, que não fizemos besteira, e que realmente ficou melhor (que antes!).

Entretanto, este fato não deve ser visto de forma negativa: tentar evitar isso é impossível, uma vez que vivemos construindo nossas referências pessoais através do  coletivo. Porém ter consciência disto, do papel e influência dos outros em nossas vidas (amigos, namorados, maridos, pais, etc), é caminhar de forma mais segura atrás de uma imagem pessoal que dificilmente é satisfeita, uma vez que os buracos são muitos (e surgem constantemente) pela vida.

E o que isto tem a ver com cirurgia plástica? Simples, pois a estética corporal está diretamente ligada á uma atual sociedade cambiante, e consequentemente, á uma busca pelo corpo ideal que se altera na mesma medida. Na ânsia de parecer mais desejados perante os olhos dos outros, muitos esquecem de seus desejos para corresponder a uma expectativa de alguém, que nem sempre entende o que está por trás de tal mudança.

Neste momento, muitas vezes é preciso confrontar opiniões e bancar situações que demandam certas doses de coragem, e porque não dizer, narcisismo. Mudar algo na vida, nem que seja através de uma cirurgia plástica, é sempre uma atitude que lhe tira de certa inércia em direção ao novo. Como as pessoas são diferentes (e seus motivos também) isso interessa somente a quem deseja mudar, e a mais ninguém.

Vejo o caso de Dilma Roussef: muitos criticaram, outros elogiaram. Se acharam no direito de opinar das mais diversas formas; e sabe o que fez a ministra? Nada! Agiu de forma educada, como se nada tivesse acontecido; como se os porquês da mudança fossem somente dela, e só a ela interessassem.

E fez bem. Foi um bom começo de campanha.


Feb 20 2009

Carnaval (repost)

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Odeio carnaval.

Ok, talvez seja meu mau humor característico que antecede os feriados nacionais. Mas o problema aqui não são os feriados, sempre bem-vindos, mas sim aquele clima de “para onde vou neste carnaval?” que fica no ar.

Começa uns dias antes, quando você se dá conta que o tais dias de praia cheia estão para chegar.

Você lembra do carnaval passado, quando gastou mais do que devia, lembra do seu apartamento ainda sujo de seu último final de semana bebendo com os amigos. Lembra do convite que aquele amigo seu lhe fez para uma festa em Floripa. Lembra de seus amigos, de suas amigas, e das amigas de suas amigas. Lembra daqueles sambas que você odeia “A gente vai se ver na Globo…”. Lembra que só tem isso na tv. E lembra que na cidade não tem nada.

Então, como você só tem duas opções: ou vai ou fica, neste carnaval resolvi que meus ouvidos acostumados com alguns blues dos últimos dias, não mereceriam ser mal-tratados por coisas como “Piririm, piririm, piririm, alguém ligou pra mim?” ou “Tô ficando atoladinha…” e similares. Sem contar, as ruas da praia cheias de um povo que você fica se perguntando de que planeta veio essa gente.

Mas por favor, não deixe que este meu azedume influencie você. Carnaval na praia tem suas vantagens e opções.

Como um bom feriado não é feriado sem uma festinha eletrônica, você sabe que encontrará várias opções de lugares cheios de gente louca de bala, suando e pulando. Os marombeiros com suas camisetas regatas e seus músculos fakes, os jiu-jiteros com suas correntes de prata no pescoço, as patricinhas inacessíveis, as moderninhas se beijando, os novos óculos que alguém comprou em Paris; cada um na sua, curtindo a música transcedental que atinge os chácras e te faz ter uma experiência única. Por favor!

Ou ainda os pagodes. Sim! Que maravilha os pagodes e suas letras. Nada como cantar os males para espantá-los.

Isso durante a noite. Já os dias, estes também são maravilhosos.

Você já acorda com aquela ressaca moral, que te lembra da merda que você fez quando resolveu que iria ali no bar com ela, só para pegar aquela bebida, e do posterior bafo de lança-perfume dela no final da noite que não acabava. Que boas lembranças!

Se você for à praia então, a diversão fica completa: desde a corrida com obstáculos de merda de cachorro, até nado de costas com algas e latas, tudo é uma aventura. Isso sem contar as conversas interessantes do tipo “minha barriga faz um pneu quando eu sento, mas é por causa da posição” que acontecem. Nada como uma boa praia depois de uma festa eletrônica!

E a volta na Br então, é o final perfeito. Você vem dirigindo e lembrando que no outro dia a vida continua, pára, entra na fila, anda, fica se perguntando o que tem na tv a cabo, ultrapassa, pára de novo. Aquela delícia que é dirigir na estrada lotada da volta de um feriado, para depois chegar em casa, tomar um banho e recomeçar sua vida de cabeça erguida: fui, vi e venci.

Por isso tudo, e me perdoe se você for um folião, fiquei em casa. Tinha coisas mais importantes para fazer. Afinal de contas, invadir a Oceania e mais um continente a minha escolha dá um trabalho danado.

(publicado em 2005)

Feb 4 2009

Veríssimo – Quase

Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez, é a desilusão de um quase.

É o quase que incomoda, que entristece, que mata, trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.

Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos “bom dia”, quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz.

A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.

Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.

Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance; preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.

Porque embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

Luiz Fernando Verissimo


Jan 9 2009

Catarina ed. 20

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Moda e Rock

Das muitas referências adotadas pela moda, o rock certamente figura dentre os elementos que mais conquistaram um lugar sob os holofotes, com o perdão do trocadilho. O movimento rock, volta e meia retorna às passarelas e conquista novamente criativos, empresários e consumidores, revitalizando-se constantemente não somente pela música ou moda, mas também por padrões de comportamento que influenciam gerações.

A moda, assim como o rock, alimenta-se da cultura, dos desejos e da vontade de expressão que nos torna humanos. São elementos de constituição de identidade, de reconhecimento e identificação perante um grupo, ou um outro; portanto parece lógica  uma aproximação entre ambos, a ponto deste fato estar fortemente marcado em nossa cultura ocidental desde o momento do surgimento deste estilo musical, no início dos anos 50.

Resultado de uma bem resolvida mistura entre alguns ritmos da época (rhythm and blues, gospel music e country), o rock teve em seu início um dos grande ícones da música e da moda, Elvis Presley. Desde aquela época, os ídolos do rock são grandes formadores de opinião, difundindo idéias, comportamentos e modos de vestir-se; criticados, adorados e copiados, a moda que inicialmente funcionou como um sinal de rebeldia do rock, uma expressão muitas vezes única e subjetiva, logo transformou-se em parte fundamental da história de gerações, criando uma estética que permanece até hoje. Ainda nos anos 60, os Beatles transformaram-se em estrelas mundiais, e consequentemente, em ícones da moda da época, copiados em suas roupas e cabelos. Até meados dos 70, vários estilos de rock haviam então produzido suas lendas e determinado os padrões da moda: do folk-rock de Bob Dilan e Neil Young com seus jeans e jaquetas, passando pela psicodelia colorida do Pink Floyd, Jimi Hendrix e Janis Joplin, até os cintos de metal e as calças de couro de Jim Morrison, a cena rock da década contribuiu de forma clara para unir pessoas através da música, e ao mesmo tempo, utilizou-se da moda como fonte de identificação. Este processo foi tão marcante na época, que um dos motivos do fim do movimento hippie foi justamente seu processo massivo de identificação na moda; quando milhares começaram a vestir-se como hippies, não importando mais a concepção paz-e-amor que tanto motivou o inicio do movimento, este transformou-se em lugar-comum e perdeu muito de sua força.

Ainda antes dos anos 80, outro tipo de rock voltou a influenciar comportamentos e vestimentas: o heavy metal do Kiss, Black Sabbath, AC/DC e outros; seus couros, metais, acessórios, e suas roupas coladas, somadas a um estilo de vida all night long, arrebataram milhares de fiéis seguidores. Seguiram-se então nesta década outras  influências da música na moda, como o despojamento do punk dos Sex Pistols e do Dead Kennedys, o brilho new wave do Talking Heads, Culture Club e Eurythmics, o dark do The Cure e da Echo & the Bunnymen, o alternativo do R.E.M; todos criaram suas raízes na cultura, e até hoje são referenciais para os criativos. Já na década de 90, o grunge deu sua contribuição, e bandas como Nirvana, Sound Garden e Pearl Jam influenciaram aquela e as demais gerações com um estilo “largado” de vestir-se. A isto, também somou-se o resgate de um rock amoroso, e bandas como U2 e Smashing Pumpkins destacaram-se no cenário, seguidas do metal alternativo do Faith No More, Alice In Chains, ou ainda do visual dark-elegante da Evanescence; todas foram tidas como ideais de referência para a moda.

Depois da virada do milênio, o que observou-se foi um resgate do estilo de rock de outras décadas, como resposta à força do movimento pop e eletrônico. Bandas como Strokes, Libertines, White Stripes, Kaiser Chiefs e Arctic Monkeys, somente para citar alguns, apesar de criticadas trouxeram um novo fôlego para o rock e rapidamente se transformaram em ícones da moda, mas agora com um algo mais de atitude.

E este é um ponto importante que torna o rock ainda tão atual, porque ainda hoje ele está diretamente ligado ao conceito de atitude, sempre desejada por muitos e faltosa para outros tantos. O que percebe-se agora, quando as tecnologias ligam as pessoas de todas as partes do mundo, é que não existem mais espaços marcados para encontros entre a moda e o rock. Portanto, ele vai além de um simples referencial criativo para a moda, porque assim como ela, é fator constitutivo de um momento de nossa cultura.

O rock é ainda tão utilizado como referência na moda, porque segue traduzindo um ideal eterno de juventude alternativa e independente, com suas individualidades respeitadas e suas vozes escutadas. Seja em uma música, ou na estampa de uma camiseta, o rock sempre está disposto a dizer algo. Que ainda sejam muitas as suas expressões.

*Artigo publicado na edição 20 da Revista Catarina.


Jan 9 2009

Catarina ed. 20

Do Caos á Lama

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No filme nacional O Cheiro do Ralo, de Heitor Dahlia, o personagem principal vivido pelo ator Selton Mello é Lourenço, que insiste para todos que caso sintam um mau cheiro, o odor não vem dele, mas sim é culpa de um ralo entupido em seu banheiro. O cheiro do ralo, a culpa de Lourenço, é o que ele quer esconder de todos; mas não pode, e isso lhe custa caro.

E este fato do cheiro me fez pensar sobre a catástrofe das chuvas que afetaram o sul do Brasil. O mundo inteiro viu, o país ficou comovido, a mídia estava alvorecida. Uma parte de um estado querido, Santa Catarina, cobriu-se de terra, água, pedras, árvores, e tudo aquilo que possa desabar, soterrar e engolir não somente o muito de poucos, mas sim o pouco de muitos. O Vale do Itajaí, grande pólo da indústria da moda, concentrou grande parte dos estragos provocados pela chuva constante de meses: o solo ficou tão encharcado que literalmente derreteu, levando consigo sonhos e vidas. As cidades transformaram-se em um cenário surreal, algo como uma New Orleans destruída. Quando a chuva parou e a água baixou, o estrago tornou-se visível: pessoas desabrigadas, casas soterradas, paisagens transformadas, ruas com móveis destruídos na calçada. Esgoto e lama; muita lama, para todos os lados. E como era de se esperar, a chegada do esperado sol trouxe também o cheiro da sujeira.

Dentre tantas tristezas amplamente divulgadas, este fato me chamou a atenção: o cheiro do lama. E percebi pasmo, ainda mais por viver em uma das cidades atingidas, que não era a lama que fedia. O cheiro vinha de nós. De nossa culpa.

Somos culpados por acabar com o clima, por entupir os bueiros, por devastar as encostas dos morros, pela ocupação sem controle. Culpados por só agirmos, quando acontece uma desgraça. É o cheiro da nossa culpa que se espalhou pelas cidades, lembrando-nos de como somos estúpidos por estarmos desenfreadamente sugando o que ainda resta da natureza. Mas principalmente, somos culpados por não fazermos nada de concreto para que isso mude. Portanto caro leitor, e sinto muito em lhe dizer isso, o cheiro da lama de Santa Catarina (ainda que você esteja longe do Sul) vem de você, vem de mim, de nós. Obviamente muita gente ajudou, e você pode ser um dos tantos com o coração apertado que enviou dinheiro, comida, roupas, móveis, enfim, tudo aquilo que pode ajudar a reconstruir algo para alguém. Grandes empresas enviaram cargas de água mineral e comida, políticos se movimentaram, veículos promoveram ações, pais e mães solidários. E isso é muito bonito, e necessário.

Porém, não basta que possamos agir somente quando a televisão mostra o desespero de alguém que perdeu o pouco que tinha. Muitos neste momento, enviam seus velhos cobertores para doação como um pedido de desculpas por nunca terem feito nada, uma compensação que ajuda a aliviar a culpa; ao menos até que outra catástrofe aconteça e a mídia solicite sua caridade. É algo como “já ajudei, fiz minha parte; agora posso sair de casa de cabeça erguida, jogar meu cigarro na rua, uns papéis pela janela, e no final de semana posso deixar umas latinhas na praia…”.

Não é preciso ser geólogo ou técnico ambiental para que seja pensada a influência do homem nas mudanças do clima no planeta. A destruição da natureza, a ocupação desordenada e os pequenos atos do dia-a-dia ajudam a poluir e destruir o ambiente, a entupir os bueiros, a ampliar as tragédias; ajudam a nos cobrir de lama. E isto é responsabilidade de todos.

Assim como no filme O Cheiro do Ralo, o cheiro da culpa das cidades atingidas em Santa Catarina irritou as narinas de muita gente. E não adianta tapar ou torcer o nariz. Fede mesmo.

*Artigo publicado na edição 20 da Revista Catarina.


Nov 20 2008

Drummond

Por muito tempo achei que ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Porque não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações sem fim.
Porque a ausência, essa ausência assimilada.
Ninguém rouba mais de mim.

(Carlos Drummond de Andrade)


Nov 18 2008

Veríssimo (clássicos)

Palavrões

Os palavrões não nasceram por acaso.

São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia.

Sem que isso signifique a “vulgarização” do idioma, mas apenas sua maior aproximação com a gente simples das ruas e dos escritórios, seus sentimentos, suas emoções, seu jeito, sua índole.

“Pra caralho”, por exemplo. Qual expressão traduz melhor a idéia de muita quantidade do que “Pra caralho”? “Pra caralho” tende ao infinito, é quase uma expressão matemática. A Via-Láctea tem estrelas pra caralho, o Sol é quente pra caralho, o universo é antigo pra caralho, eu gosto de cerveja pra caralho, entende?

No gênero do “Pra caralho”, mas expressando a mais absoluta negação, está o famoso “Nem fodendo!”. O “Nem fodendo” é irretorquível, e liquida o assunto. Te libera, com a consciência tranqüila, para outras atividades de maior interesse em sua vida. Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo “Marquinhos, presta atenção, filho querido, NEM FODENDO!”. O impertinente se manca na hora e vai pro Shopping se encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o CD do Lupicínio.

Por sua vez, o “Porra nenhuma!” atendeu tão plenamente as situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional. Como comentar a bravata daquele chefe idiota, senão com um “é PhD porra nenhuma!”, ou “ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma!”. O “porra nenhuma”, como vocês podem ver, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha.

Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um “Puta-que-pariu!”, ou seu correlato “Puta-que-o-pariu!”, falados assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba… Diante de uma notícia irritante, qualquer “puta-que-o-pariu!” dito assim te coloca outra vez em seu eixo. Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça.

E o que dizer de nosso famoso “vai tomar no cu!”? E sua maravilhosa e reforçadora derivação “vai tomar no meio do seu cu!”. Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: “Chega! Vai tomar no meio do seu cu!” Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua auto-estima. Desabotoa a camisa e saia à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.

E seria tremendamente injusto não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: “Fodeu!”. E sua derivação mais avassaladora ainda: “Fodeu de vez!”. Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando você está dirigindo bêbado, sem documentos do carro e sem carteira de habilitação e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando você parar: O que você fala? “Fodeu de vez!”.

Sem contar que o nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de “foda-se!” que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do “foda-se!”? O “foda-se!” aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Me liberta. “Não quer sair comigo? Então foda-se!”. “Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se!”.

O direito ao “foda-se!” deveria estar assegurado na Constituição Federal.
Liberdade, igualdade, fraternidade e foda-se!

(Luís Fernando Veríssimo)


Nov 15 2008

Veríssimo

A Páscoa

-Papai, o que é Páscoa?

-Ora, Páscoa é… bem… é uma festa religiosa!

-Igual ao Natal?

-É parecido. Só que no Natal comemora-se o nascimento de Jesus, e na Páscoa, se não me engano, comemora-se a sua ressurreição.

-Ressurreição?

-É, ressurreição. Marta , vem cá !

-Sim?

-Explica pra esse garoto o que é ressurreição pra eu poder ler o meu jornal.

-Bom, meu filho, ressurreição é tornar a viver após ter morrido. Foi o que aconteceu com Jesus, três dias depois de ter sido crucificado. Ele ressuscitou e subiu aos céus. Entendeu ?

-Mais ou menos… Mamãe, Jesus era um coelho?

-O que é isso menino? Não me fale uma bobagem dessas ! Coelho! Jesus Cristo é o Papai do Céu ! Nem parece que esse menino foi batizado! Jorge, esse menino não pode crescer desse jeito, sem ir numa missa pelo menos aos domingos. Até parece que não lhe demos uma educação cristã ! Já pensou se ele solta uma besteira dessas na escola ? Deus me perdoe ! Amanhã mesmo vou matricular esse moleque no catecismo!

-Mamãe, mas o Papai do Céu não é Deus ?

-É filho, Jesus e Deus são a mesma coisa. Você vai estudar isso no catecismo. É a Trindade. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo.

-O Espírito Santo também é Deus?

-É sim.

-E Minas Gerais ?

-Sacrilégio !!!

-É por isso que a ilha de Trindade fica perto do Espírito Santo?

-Não é o Estado do Espírito Santo que compõe a Trindade, meu filho, é o Espírito Santo de Deus. É um negócio meio complicado, nem a mamãe entende direito. Mas se você perguntar no catecismo a professora explica tudinho!

-Bom, se Jesus não é um coelho, quem é o coelho da Páscoa ?

-Eu sei lá ! É uma tradição. É igual a Papai Noel, só que ao invés de presente ele traz ovinhos.

-Coelho bota ovo ?

-Chega ! Deixa eu ir fazer o almoço que eu ganho mais !

- Papai, não era melhor que fosse galinha da Páscoa ?

-Era… era melhor,sim… ou então urubu.

-Papai, Jesus nasceu no dia 25 de dezembro, né ?

-Que dia ele morreu ?

-Isso eu sei: na Sexta-feira Santa.

-Que dia e que mês?

-Sabe que eu nunca pensei nisso ? Eu só aprendi que ele morreu na Sexta-feira Santa e ressuscitou três dias depois, no Sábado de Aleluia.

-Um dia depois!

-Não três dias depois.

-Então morreu na Quarta-feira.

-Não, morreu na Sexta-feira Santa… ou terá sido na Quarta-feira de Cinzas ? Ah, garoto, vê se não me confunde ! Morreu na Sexta mesmo e ressuscitou no sábado, três dias depois! Como ? Pergunte à sua professora de catecismo!

-Papai, porque amarraram um monte de bonecos de pano lá na rua ?

-É que hoje é Sábado de Aleluia, e o pessoal vai fazer a malhação do Judas. Judas foi o apóstolo que traiu Jesus.

-O judas traiu Jesus no Sábado ?

-Claro que não ! Se Jesus morreu na Sexta !!!

-Então por que eles não malham o Judas no dia certo ?

-Ui…

-Papai, qual era o sobrenome de Jesus?

-Cristo. Jesus Cristo.

-Só ?

-Que eu saiba sim, por quê?

-Não sei não, mas tenho um palpite de que o nome dele era Jesus Cristo Coelho. Só assim esse negócio de coelho da Páscoa faz sentido, não acha ?

-Ai coitada!

-Coitada de quem?

-Da sua professora de catecismo!

(Luiz Fernando Veríssimo)


Nov 14 2008

Amigos

Escolho os meus amigos não pela pele, nem outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.

A mim não interessam os bons de espírito ou os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero o meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e aguentem o que há de pior em mim. E para isso, só sendo louco.

Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta. Amigo que não ri junto não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis nem choros piedosos. Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e a outra metade velhice. Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto e velhos para que nunca tenham pressa.

Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que normalidade é uma ilusão imbecil e estéril.

Oscar Wilde