
Compreender o grande universo que é a moda nos traz inúmeras perspectivas de abordagens, e certamente uma das que mais levanta questionamentos por parte de profissionais e consumidores é quando discute-se sobre o poder e a influência daquilo que cria desejo e nos faz assimilar novas idéias e conceitos.
E um dos argumentos mais utilizados e discutidos pelos críticos vorazes, é que a mídia, a publicidade e a moda são os grandes responsáveis por diversos problemas que afetam as pessoas, principalmente sobre a noção que estas possuem sobre sua imagem corporal: um ideal impossível de alcançar graças ás regras de corpos magros e de roupas que não são feitas para as pessoas “comuns”, impostas por modelos criados por aqueles que decidem como muitos irão se vestir.
Para estes críticos, o consumismo, a anorexia, os problemas de imagem, a falta de aceitação e de posicionamento social, dentre outros transtornos que lotam as salas de psicólogos e psiquiatras, são resultados desta indústria famigerada da moda que influencia cada vez mais as pessoas a usarem o que não querem e a serem aquilo que não podem ser. Argumentam que sequer sabem quais são seus desejos uma vez que estes são impostos, que há uma submissão coletiva às regras de tendências, que são inconscientemente influenciados pela publicidade, pela tv, pelas capas de revistas, pelos desfiles, blá-blá-blá.
Argumentam que não podem reagir, que não são culpados e responsáveis por seus problemas, e que são apenas vítimas. Ou seja, que a culpa é do Outro.
Obviamente não serei hipócrita de negar a influência destes meios na decisão de compra das pessoas, isto é óbvio e as discussões sobre este assunto são muitas e cansativas; porém o que pouco discute-se é sobre a dificuldade que temos para assumir a responsabilidade sobre nossas próprias decisões, e sobre as conseqüências que estas nos trazem. Para tanto, e para traçarmos um paralelo com a moda, necessitamos pensar a respeito do que cada um de nós considera, ou não, belo.
A moda está diretamente ligada á concepção de beleza e este conceito é muito diferente para cada pessoa. Muito do que consideramos belo hoje vem de nossa construção de vida, de como neste tempo todo nos relacionamos com a beleza (ou com a possível falta dela) durante o desenrolar de nossa história pessoal, principalmente na infância e no que veio depois, períodos fundamentais na construção da personalidade. Por exemplo, se você passou a adolescência toda sentindo-se feia e rejeitada (o que é comum para a fase), isto poderia ser simplesmente uma resposta ao seu ambiente, sua família, seus amigos, etc. Inúmeras possibilidades. Porém, o que pode ficar até hoje, é uma aversão á beleza, á moda.
Eis que ao criticar, ao posicionar-se contra e gritar para os céus que odeia este “mundinho”, muitos estão simplesmente encontrando saídas para devolver um pouco da raiva que tanto sentiram por se considerarem “diferentes”, e que carregam até hoje.
Muitos ao criticar, fingem esquecer de suas vaidades, de seus vícios, de suas compensações; fingem esquecer que quando entram em um shopping também lançam-se desenfreadamente atrás da mesma moda que tanto ajudam a criticar, e que tanto ajuda a tapar seus buracos narcisistas. Fingem porque isso implica em envolver-se como responsável pelas merdas que acontecem, uma vez que é muito mais fácil e cômodo deslocar a culpa para alguém ou para um “sistema” maldoso que os empurra para o consumo.
Porém o que fingem não saber, é que este sistema foi construído por eles, por seus pais, por um histórico de gerações; ou seja, pelo social. É o resultado de uma sociedade, onde todos são implicados; e a moda é, como tantas vezes antes, um reflexo deste determinado momento na história onde tudo é acessível, mutável.
Enfim, o que a moda mostra vai além de simples imagens e conceitos, cujo objetivo final sempre é o consumo; vai além das passarelas, das capas das revistas, dos outdoors e das campanhas publicitárias. Ela desloca e cria emoções, atrai o olhar do outro, preenche espaços. Ela funciona como um espelho que reflete muitos aspectos de nossa sociedade, de nossa vida.
E isso muitas vezes incomoda, porquê sempre acreditamos que poderíamos ter feito melhor, poderíamos ter sido menos encanados, que poderia ter sido diferente.
Portanto caro leitor, ao ouvir uma crítica, saiba que as palavras vão além de seus sentidos aparentes. Carregam sempre algo mais, algo pessoal.
Muitos dos que criticam, buscam encontrar um certo alivio ilusório para suas questões. Acreditam serem vítimas da mídia, da publicidade, porque assim não se sentem implicados. Porque crêem que deste modo se sentirão melhores, e poderão levantar suas bandeiras contra esta moda malvada que tanto os faz consumir.
Porquê para eles, a culpa sempre é do Outro.
*Artigo publicado na edição de três anos da Revista Catarina.