Aug 20 2010

Com a proximidade das eleições, é interessante relembrar algumas letras de músicas que explicam bem a situação que sempre se repete.

Muda, que quando a gente muda o mundo muda com a gente
A gente muda o mundo na mudança da mente
E quando a mente muda a gente anda pra frente
E quando a gente manda ninguém manda na gente

Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doença sem cura
Na mudança de postura a gente fica mais seguro
Na mudança do presente a gente molda o futuro


Aug 20 2010

Veríssimo

— Beleza, a sua cozinha.
— Obrigado, eu…
— É você quem cozinha sempre ou…
— Não, não. Tem uma senhora que vem arrumar o apartamento sempre e deixa um prato feito na geladeira. Sou cozinheiro de fim de semana. Marinheiro de… Como é mesmo que se diz?
— O quê?
— Doce.
— Eu?
— Água doce. Marinheiro de água doce. Você quer esperar na sala, enquanto eu…
— Fico aqui com você. A menos que…
— Não, pode ficar. Quem sabe a gente já abre o vinho e fica bebericando, enquanto eu…
— Adoro bebericar. Uma beleza, o seu abridor.
— Obrigado. Este vinho precisa respirar um pouco antes de ser servido. Pode parecer bobagem mas…
— Não, não. Respirar é das coisas mais importantes que existem.
— Ele precisa estar na temperatura ambiente.
— Adoro a temperatura ambiente.
— Você está disposta a experimentar o meu bobó?
— O seu…
— Bobó de camarão. Minha especialidade.
— Ah, claro. Não foi para isso que você me convidou? Adoro bobó.
— Você já comeu alguma vez?
— Nunca. Mas adoro.
— Olha o vinho.
— Mmmmm.
— Hein?
— Eu disse “Mmmmm”… Epa!
— Desculpe. Estou um pouco nervoso. Sabe como é, a responsabilidade. Você pode não gostar do meu…
— Bobo.
— Bobó.
— Bobo é você. Vou adorar o seu bobó.
— Será que o vinho vai manchar o seu vestido?
— Não. Em todo o caso…
— Quem sabe um pano com água quente? É só esquentar a água e…
— Adoro tudo o que é quente. Uma beleza a sua chaleira.
— Enquanto isto, vou preparando os ingredientes. Deixa ver. Pimentinha…
— Sim?
— Não, eu disse “pimentinha”.
— Não me diz que leva pimenta!
— Leva. Você não gosta?
— Adoro!
— É da braba.
— Ui! Você, hein? com esse jeito tímido… Só de ouvir falar em pimenta, fiquei toda arrepiada. Passa a mão aqui…
— É mesmo. Que estranho. Só de ouvir falar em pimenta…
— Mal posso esperar o seu bobó.
— Calma, calma.
— Demora muito?
— Se você me der uma mão… Na geladeira, na parte de baixo, estão os camarões… Você vai ter que se abaixar um pouco e…
— Beleza a sua geladeira. Foi você que assobiou?
— Não, foi a minha chaleira. Mas…
— Sim?
— Eu concordo com ela.
— Mmmmm…


Aug 5 2010

Os Originais – repost

eid11 Os Originais   repost

Originalidade é algo tão complicado quanto a própria definição do que é, ou não, original. É relacionado ao novo, ao autêntico, e buscado insistentemente por muitos, em especial por criativos de diversos mercados. Ser original é algo tão cobiçado que nos esforçamos para isso a todo momento, mesmo que de forma inconsciente. Tentamos ser originais quando nos comportamos, nos vestimos e quando falamos; tentamos ser originais no trabalho, nas amizades, nos relacionamentos e na cama (inclusive, eis aí a queixa de muitos e muitas).

Porém esta é uma busca que nos acompanha há muito, desde os povos antigos. Os egípcios buscavam a originalidade em suas obras e manifestações, na esperança de agradar os inúmeros deuses; os gregos foram únicos e originais com sua forma de perceber o mundo através da arte e da filosofia, assim como os romanos com suas ideias sobre urbanismo e tantas outras expressões. No Renascimento, o conceito de originalidade esteve relacionado com genialidade; pintores como Botticelli, Da Vinci e outros eram tidos como gênios portadores de uma forma desenvolvida de intuição, uma pessoa rara, diferente e com capacidade de ter naturalmente ideias originais, o que outras pessoas só poderiam conseguir divagando. Depois com  a Revolução Industrial, o original esteve relacionado com as novas formas de produção; e com o surgimento do capitalismo os ganhos colocaram-se no foco da questão, onde original eram ideias para se conseguir lucrar mais. Agora com a informática e a web, a comunicação sem fronteiras ampliou consideravelmente tal perspectiva.

Portanto, quem define o que é, ou quem são os originais? Hoje este conceito está completamente diluido e supérfluo. Para você ter uma ideia, ao digitar “original” no Google, aparecem 953.000.000 (!) termos encontrados. Bares, lojas, igrejas, serviços, marcas das mais diversas, tudo é original. Até na bíblia, o pecado é original. Por isso hoje alguns definem-se como originais e tentam insistentemente ganhar destaque, mas esquecem que muitas vezes esta busca os coloca dentro de outro grupo, a tribo dos “originais”, que adoram fazer tudo igual; e consequentemente, perdem a originalidade. Estes, quanto mais se esforçam para aparecerem, menos originais tornam-se e mais cópias fazem; eis então que surgem os clichês. E nada mais clichê, do que ideias clichês (e elas existem aos montes, expulsando toda a originalidade). Muitos rotulam-se como originais mas esquecem que isso tem relação direta com ruptura, com ver as coisas de forma diferente. Tem a ver com subjetividade, com aquilo que vamos construindo na medida em que nos desenvolvemos e vivenciamos as experiências da vida através de nossas relações com o mundo.

Ou seja, você também é aquilo que consome culturalmente: ao se “alimentar” somente de superficialidades, a probabilidade de reproduzir isso por aí é imensa. Como esta demanda muitas vezes está ligada com a busca pela confirmação de alguém que lhe afirme e que lhe diga se você é ou não original, neste momento podemos estar tão dependentes e atrelados aos outros, que deixamos de ser originais na medida em que fazemos isso para mostrar o quanto podemos.

Original é fugir dos padrões, quebrar regras e questionar o que já está mastigado e pronto para ser engolido. É ver ideias novas, nas coisas simples. É buscar evitar o mesmo, que chatea, aborrece e entedia. Fuja dele, porque nada é menos original que a falta de originalidade.

Texto de Diogo Scandolara, publicado na Revista Catarina.

Jun 5 2010

O mito da perfeição

milan1 O mito da perfeição

Um dos consulentes de minha coluna em VEJA.com conta que se esforçou a vida inteira para ser o melhor dos filhos, o irmão mais querido, o namorado perfeito, o funcionário exemplar, o chefe compreensivo, o amigo de todas as horas – mas que se deu conta de só ter se comportado dessa maneira para satisfazer o desejo do outro e, assim, ser adorado e se sentir superior. Ou seja, por egoísmo.

Como não poderia deixar de ser, o desejo do outro e o dele nem sempre coincidem. Dessa forma, casou-se há oito anos por causa de uma gravidez inesperada e é pai de três filhos. Hoje não tem afinidade nenhuma com a mulher, gostaria de se separar dela e não ousa. Tem pavor de ser reprovado. Quando teve uma amante e quase foi pego em flagrante, chegou a pensar em suicídio. Sabe, contudo, que precisa aprender a decepcionar os outros para viver.

A história tanto surpreende pela clareza do consulente em relação à própria vida quanto pela impossibilidade de mudá-la. Apesar da consciência clara, ele está paralisado pelo medo da reprovação. Para saber o motivo, necessita de uma consciência nova, que só a psicanálise propicia – pois é por meio da fala, e apenas dela, que a pessoa se expõe ao seu próprio inconsciente e àquilo que ele pode revelar.

O consulente mostra quão limitada é a consciência reflexiva do dia a dia quando se trata do conhecimento da própria subjetividade. Precisamente por causa desse limite, a psicanálise substituiu o “Penso, logo existo”, da filosofia de Descartes, pelo “Digo, logo existo”. Com isso, ela enfatiza a importância do discurso para a autopercepção. Não é fácil aceitar o “Digo, logo existo”, porque tanto a palavra nos escapa quanto tentamos fugir dela, fato de que a língua dá conta com vários provérbios. Entre eles, “O silêncio é de ouro” ou “O peixe morre pela boca”.

O inconsciente, porém, faz e fala por nós. E, também disso, a língua dá conta com a frase “Ninguém é perfeito”. Se atentássemos para o que a língua ensina em alguns de seus clichês, sofreríamos menos porque aceitaríamos a possibilidade de falhar. Em vez disso, como o consulente, nós insistimos no mito da perfeição. Caímos continuamente nessa armadilha do nosso imaginário, ao contrário de Sigmund Freud, o criador da psicanálise. Por ter aceito a imperfeição da condição humana, e ter se debruçado sobre essa realidade, ele abriu um caminho verdadeiramente novo e nos legou a possibilidade de nos curarmos de nós mesmos.

Betty Milan, psicanalista, em sua coluna na Veja.

Jun 3 2010

“O pior mal, é aquele ao qual nos acostumamos”.

Sartre


May 25 2010

“Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos de quem não sabe voar.”
Nietzsche

May 8 2010

Escrever é fácil. Você começa com maiúscula e termina com um ponto final.

No meio, coloca idéias.

Neruda

Apr 28 2010

O corpo e a mente
têm biografias separadas,
cada um sua memória própria,
seu próprio jogo de charadas.
Meu corpo tem lembranças
- cheiros, tiques, andanças -
que a mente não registrou,
e o corpo não tem as marcas
de metade do que a mente passou.

Veríssimo

Apr 26 2010

“As pessoas são solitárias porque erguem paredes em vez de pontes.”

Joseph Fort Newton

Apr 24 2010

Veríssimo

O melhor do namoro, claro, é o ridículo.
Vocês dois no telefone:
— Desliga você.
— Não, desliga você.
— Você.
— Você.
— Então vamos desligar juntos.
— Tá. Conta até três.
— Um… Dois… Dois e meio…
Ridículo agora, porque na hora não era não. Na hora nem os apelidos secretos que vocês tinham um para o outro, lembra?, eram ridículos. Ronron. Suzuca. Alcizanzão. Surusuzuca. Gongonha. (Gongonha!) Mamosa. Purupupuca…
Não havia coisa melhor do que passar tardes inteiras num sofá, olho no olho, dizendo:
— As dondozeira ama os dondozeiro?
— Ama.
— Mas os dondozeiro ama as dondozeira mais do que as dondozeira ama os dondozeiro.
— Na-na-não. As dondozeira ama os dondozeiro mais do que etc.
E, entremeando o diálogo, longos beijos, profundos beijos, beijos mais do que de língua, beijos de amígdalas, beijos catetéricos. Tardes inteiras. Confesse: ridículo só porque nunca mais.
Depois do ridículo, o melhor do namoro são as brigas. Quem diz que nunca, como quem não quer nada, arquitetou um encontro casual com a ex ou o ex só para ver se ela ou ele está com alguém, ou para fingir que não vê, ou para ver e ignorar, ou para dar um abano amistoso querendo dizer que ela ou ele agora significa tão pouco que podem até ser amigos, está mentindo. Ah, está mentindo.
E melhor do que as brigas são as reconciliações. Beijos ainda mais profundos, apelidos ainda mais lamentáveis, vistos de longe. A gente brigava mesmo era para se reconciliar depois, lembra?
Oito entre dez namorados transam pela primeira vez fazendo as pazes. Não estou inventando. O IBGE tem as estatísticas.

Apr 21 2010

Repost

A Falta

Saber o que fazer com a falta é complicado, porque abandonar algo muitas vezes nos faz questionar, recuar.

O final de alguma coisa implica no começo de outra. Por exemplo, o começo de uma tristeza pode ser o fim de algo que não necessariamente lhe fazia feliz; e o começo de uma nova amizade pode significar o fim de uma velha solidão. Trocar de emprego ou faculdade, terminar um relacionamento, perder alguém, ficar longe de quem se gosta, esquecer ou ser esquecido; tudo isso nos é doloroso e muitas vezes inevitável, mas também necessário.

E toda falta tem a ver com substituições, uma vez que estas nos fazem disfarçar e burlar a ausência para nos sentirmos melhores. Temos a incrível tendência de fazermos substituições constantes em nossa vida. E fazemos isso porque o novo incomoda.

Substituimos a esperança pela dor e a dúvida sadia pela paixão cega. A busca de um amor pela falta de expectativa, e a falta de tentativa por alguma explicação sem lógica. O inesperado pela segurança, e a coragem que pede o inesperado, pela razão.

Substituimos alguém que se foi por lembranças, e alguém que virá, por expectativas nem sempre concretas. Verdades por inseguranças, e amor por costumes.
Substituimos momentos por dúvidas.
Certezas, por desapontamentos.
Medos por refúgios.
E palavras por silêncio.

Temos a impressão de que é melhor nos abrigarmos do que nos mostrarmos. Melhor não nos arriscarmos do que depois, termos que bancar nossas escolhas. Melhor nos mantermos sãos, do que nos ferirmos. Melhor aceitar, do que questionar; ou ainda deixar de tentar, por medo de não conseguir.

Logo, saber o que fazer com a falta é complicado.
Porque os vazios da falta nos corroem: são espaços deixados em aberto. E aquilo que não é resolvido, é simplesmente encoberto. E esse é o problema.

Tentar encobrir uma falta, é postergar.
É guardar algo que, quando voltar á tona, trará outras coisas também guardadas. E com elas, outras faltas. Neste momento inevitável (portanto previsível) as coisas parecem maiores do que realmente são. As preocupações se transformam em sintomas, e os sintomas em doenças.

Por isso tudo, a falta (ou o modo como lidamos com ela) se torna constituinte de quem somos, e do que almejamos ser. E saber lidar com ela é mais importante do que querer substituí-la.

Diante da falta, movimente-se: as novas oportunidades só aparecem para quem as busca; e todo poder de veto da falta é anulado pela perspectiva do novo, que se faz presente assim que lhe é permitido.

Portanto, na próxima vez que a falta se aproximar, receba-a de braços abertos e tente encará-la e confrontá-la, ao invés de desistir ou retroceder. Vá e arrisque-se sozinho, com alguém ou por alguém.

Ao invés de silenciar-se, grite.
E ao invés de procurar guarida, levante-se.

Você verá que a falta, não faz falta alguma.


Apr 1 2010

Veríssimo

Pensando bem em tudo o que a gente vê, vivencia, ouve e pensa, não existe uma pessoa certa pra gente.
Existe uma pessoa que se você for parar pra pensar é, na verdade, a pessoa errada.
Porque a pessoa certa faz tudo certinho!
Chega na hora certa, fala as coisas certas, faz as coisas certas, mas nem sempre a gente tá precisando das coisas certas.
Aí é a hora de procurar a pessoa errada.
A pessoa errada te faz perder a cabeça, perder a hora, morrer de amor.
A pessoa errada vai ficar um dia sem te procurar que é pra na hora que vocês se encontrarem a entrega ser muito mais verdadeira.
A pessoa errada, é na verdade, aquilo que a gente chama de pessoa certa.
Essa pessoa vai te fazer chorar, mas uma hora depois vai estar enxugando suas lágrimas.
Essa pessoa vai tirar seu sono.
Essa pessoa talvez te magoe e depois te encha de mimos pedindo seu perdão.
Essa pessoa pode não estar 100% do tempo ao seu lado, mas vai estar 100% da vida dela esperando você.
Vai estar o tempo todo pensando em você.
A pessoa errada tem que aparecer pra todo mundo, porque a vida não é certa.
Nada aqui é certo!
O que é certo mesmo, é que temos que viver cada momento, cada segundo, amando, sorrindo, chorando, emocionando, pensando, agindo, querendo, conseguindo.
E só assim, é possível chegar àquele momento em que a gente diz: “Graças à Deus deu tudo certo”.
Quando na verdade, tudo o que Ele quer é que a gente encontre a pessoa errada pra que as coisas comecem a realmente funcionar direito pra gente.


Apr 1 2010

Repost

A Páscoa

-Papai, o que é Páscoa?

-Ora, Páscoa é… bem… é uma festa religiosa!

-Igual ao Natal?

-É parecido. Só que no Natal comemora-se o nascimento de Jesus, e na Páscoa, se não me engano, comemora-se a sua ressurreição.

-Ressurreição?

-É, ressurreição. Marta , vem cá !

-Sim?

-Explica pra esse garoto o que é ressurreição pra eu poder ler o meu jornal.

-Bom, meu filho, ressurreição é tornar a viver após ter morrido. Foi o que aconteceu com Jesus, três dias depois de ter sido crucificado. Ele ressuscitou e subiu aos céus. Entendeu ?

-Mais ou menos… Mamãe, Jesus era um coelho?

-O que é isso menino? Não me fale uma bobagem dessas ! Coelho! Jesus Cristo é o Papai do Céu ! Nem parece que esse menino foi batizado! Jorge, esse menino não pode crescer desse jeito, sem ir numa missa pelo menos aos domingos. Até parece que não lhe demos uma educação cristã ! Já pensou se ele solta uma besteira dessas na escola ? Deus me perdoe ! Amanhã mesmo vou matricular esse moleque no catecismo!

-Mamãe, mas o Papai do Céu não é Deus ?

-É filho, Jesus e Deus são a mesma coisa. Você vai estudar isso no catecismo. É a Trindade. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo.

-O Espírito Santo também é Deus?

-É sim.

-E Minas Gerais ?

-Sacrilégio !!!

-É por isso que a ilha de Trindade fica perto do Espírito Santo?

-Não é o Estado do Espírito Santo que compõe a Trindade, meu filho, é o Espírito Santo de Deus. É um negócio meio complicado, nem a mamãe entende direito. Mas se você perguntar no catecismo a professora explica tudinho!

-Bom, se Jesus não é um coelho, quem é o coelho da Páscoa ?

-Eu sei lá ! É uma tradição. É igual a Papai Noel, só que ao invés de presente ele traz ovinhos.

-Coelho bota ovo ?

-Chega ! Deixa eu ir fazer o almoço que eu ganho mais !

- Papai, não era melhor que fosse galinha da Páscoa ?

-Era… era melhor,sim… ou então urubu.

-Papai, Jesus nasceu no dia 25 de dezembro, né ?

-Que dia ele morreu ?

-Isso eu sei: na Sexta-feira Santa.

-Que dia e que mês?

-Sabe que eu nunca pensei nisso ? Eu só aprendi que ele morreu na Sexta-feira Santa e ressuscitou três dias depois, no Sábado de Aleluia.

-Um dia depois!

-Não três dias depois.

-Então morreu na Quarta-feira.

-Não, morreu na Sexta-feira Santa… ou terá sido na Quarta-feira de Cinzas ? Ah, garoto, vê se não me confunde ! Morreu na Sexta mesmo e ressuscitou no sábado, três dias depois! Como ? Pergunte à sua professora de catecismo!

-Papai, porque amarraram um monte de bonecos de pano lá na rua ?

-É que hoje é Sábado de Aleluia, e o pessoal vai fazer a malhação do Judas. Judas foi o apóstolo que traiu Jesus.

-O judas traiu Jesus no Sábado ?

-Claro que não ! Se Jesus morreu na Sexta !!!

-Então por que eles não malham o Judas no dia certo ?

-Ui…

-Papai, qual era o sobrenome de Jesus?

-Cristo. Jesus Cristo.

-Só ?

-Que eu saiba sim, por quê?

-Não sei não, mas tenho um palpite de que o nome dele era Jesus Cristo Coelho. Só assim esse negócio de coelho da Páscoa faz sentido, não acha ?

-Ai coitada!

-Coitada de quem?

-Da sua professora de catecismo!

(Luiz Fernando Veríssimo)

Mar 19 2010

“Simplicidade é a complexidade resolvida”.

Constantin Brancusi, escultor romeno.

Jan 8 2010

Quase

Ainda pior que a convicção do não, é a incerteza do talvez, a desilusão de um quase!

É o quase que me incomoda, que entristece, que mata trazendo tudo o que poderia ter sido e não foi! Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escapam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca saíram do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me às vezes o que nos leva a escolher uma vida morna. A resposta eu sei de cor: está estampada na distância e na frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos ¨bom dia¨ quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz.

A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai; talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio-termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma; apenas amplia o vazio que cada um tem dentro de si.

Não é que a fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance; para as coisas que não podem ser mudadas, resta-nos somente paciência. Porém, preferir a derrota prévia à duvida da vitória, é desperdiçar a oportunidade de merecer.

Para os erros há perdão, para os fracassos chance, para os amores impossíveis tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo o fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você, gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando.

Porque embora quem quase morreu ainda vive, quem quase vive já morreu.

Sarah Westphal

Nov 26 2009

“Se minhas loucuras tivessem explicações, não seriam loucuras”.

Nietzsche


Oct 24 2009

Smart Clothes (repost)

catarina3

Incríveis as novidades que as novas tecnologias nos trazem, e uma das bases dessa revolução que afeta todos os mercados, inclusive a moda, é a interatividade.

Ela está na tecnologia da tv digital, em celulares que trocam arquivos, nas mídias externas, nos palms nas mãos de garçons, nos gps´s dos carros, nos acessórios, nas roupas; a interação está cada vez mais presente em nossa vida, principalmente na internet. Veja o exemplo da chamada web 2.0: blog´s, wikis, comunidades, novos serviços, enfim, uma nova forma de expressão está sendo criada, onde a interação e a colaboração entre as pessoas é que constrói os conteúdos. E isto está se expandindo para além dos limites digitais.

É um novo tipo de comportamento surgindo aos poucos, onde a coletividade tem papel fundamental, onde a opinião de todos importa e as diferenças individuais são preservadas. É mover-se em grupo, preservando as identidades. É o comportamento “2.0″. Ele pode ser visto nos vídeos criados e postados no YouTube, nas músicas do LastFm, nas propagandas da tv (veja o comercial “Ford Human Car”), na nova cara da Mtv, nos iPhone´s tão cobiçados, enfim; o novo agora é “quem importa é você” e “você faz do seu jeito!”.

Pensando em uma relação com a moda, esta tendência de interatividade com os outros e com o mundo também pode ser vista nas smart clothes, as roupas inteligentes que reagem com o ambiente, com o humor, as emoções e os sentimentos de quem as está vestindo. Estas peças interagem com você, em uma forma de expressão individual; e com os outros, porque tem sempre como objetivo comunicar algo, para alguém. Ao vestir uma peça que expresse algo, como leds que acendem de acordo com o nível de excitação e entusiasmo, você pode estar economizando palavras, mas ainda assim estará enviando uma mensagem para o mundo, para alguns, ou para alguém.

E porquê temos essa necessidade? Porque precisamos da opinião dos outros, precisamos saber se estamos certos, se somos aceitos; precisamos encontrar pessoas que nos escutem, com as quais possamos dividir o que pensamos e como nos sentimos. Porque somos construídos pelo social, pelas nossas relações com os outros, e constantemente necessitamos de uma aprovação subjetiva que nos diga quem somos, que nos reconheça.

Faça uma comparação e observe como as pessoas contam sua vida no ambiente digital, principalmente no Messenger. Perceba os nicks de seus amigos, as palavras colocadas ali, e como as pessoas as utilizam para compartilhar por exemplo, como se sentem (“Bruna – cansada…), onde estão (“Paulo – almoçando no clube…”), para onde vão (“Ana – Hoje, praia e balada”), de quem gostam (“Ju – saudades do André”), o que lêem (“Cris – Acredite e o universo vai conspirar…”), o que escutam e em que acreditam; definem-se em frases absurdas e clichês, contam suas vidas, suas emoções. Ou seja, tudo aquilo que possa ser direcionado para alguém (caso contrário, não estaria ali).

Chegaríamos a este ponto com as smart clothes? O que mostraríamos? Seria possível controlar as expressões de nossas roupas como as frases do Msn, ou elas simplesmente reagiriam de acordo com nossas emoções? Peças sensacionais seriam criadas, mas imagine-se vestindo uma camisa que expressa seus sentimentos, em uma festa na qual você poderia odiar estar; ou esposas obrigando seus maridos a vestirem “smart-cuecas”, para saber o que estes sentem quando estão com elas (e vice-versa); patrões determinando tipos de uniformes para seus empregados, que mostram a disposição destes para o trabalho; ou namorados brigando por roupas que entregam os verdadeiros sentimentos.

As novas tecnologias trazem uma gama enorme de novidades, e o conceito de emotional clothing certamente trará inúmeras aplicações para o mercado da moda, criando novas possibilidades de criação e expressão. Porém, é complicado prever as consequências para o futuro.

Por falta (ou medo) de colocarmos o que sentimos em palavras, recalcamos tantas coisas que estamos sempre buscando novas formas sublimar nossas emoções. Portanto caro leitor, não se assuste se em breve você encontrar pessoas vestidas como messengers ambulantes pelas ruas.

Quando este dia chegar, o melhor é estar appear off-line.

*Artigo publicado na edição de outubro de 2008 da Revista Catarina. Texto de autoria de Diogo Scandolara  -  Copyright © 2009 scandolara.com.br

Oct 17 2009

Luis Fernando Veríssimo

“A verdade é que a gente não faz filhos. Só faz o layout. Eles mesmos fazem a arte-final.”

“Dezessete é um número cabalístico e, sendo cabalístico, eu não posso revelar. Brincadeira, não tem nenhum significado. Dezessete é uma palavra bonita”. (Ao ser perguntado por que costuma o número dezessete tantas vezes em suas crônicas)

“Só acredito naquilo que posso tocar. Não acredito, por exemplo, em Luiza Brunet”.

“Escrevi uma vez que era um cético que só acreditava no que pudesse tocar: não acreditava na Luiza Brunet, por exemplo. Cruzei com a Luiza Brunet num dos camarotes deste carnaval. Ela me cobrou a frase, e disse que eu podia tocá-la para me convencer da sua existência. Toquei-a. Não me convenci. Não pode existir mulher tão bonita e tão simpática ao mesmo tempo. Vou precisar de mais provas.”


Aug 21 2009

Veríssimo

E tudo mudou…

O rouge virou blush
O pó-de-arroz virou pó-compacto
O brilho virou gloss

O rímel virou máscara incolor
A Lycra virou stretch
Anabela virou plataforma
O corpete virou porta-seios
Que virou sutiã
Que virou lib
Que virou silicone

A peruca virou aplique, interlace, megahair, alongamento
A escova virou chapinha
“Problemas de moça” viraram TPM
Confete virou MM

A crise de nervos virou estresse
A chita virou viscose.
A purpurina virou gliter
A brilhantina virou mousse

Os halteres viraram bomba
A ergométrica virou spinning
A tanga virou fio dental
E o fio dental virou anti-séptico bucal

Ninguém mais vê…

Ping-Pong virou Babaloo
O a-la-carte virou self-service

A tristeza, depressão
O espaguete virou Miojo pronto
A paquera virou pegação
A gafieira virou dança de salão

O que era praça virou shopping
A areia virou ringue
A caneta virou teclado
O long play virou CD

A fita de vídeo é DVD
O CD já é MP3
É um filho onde éramos seis
O álbum de fotos agora é mostrado por email

O namoro agora é virtual
A cantada virou torpedo
E do “não” não se tem medo
O break virou street

O samba, pagode
O carnaval de rua virou Sapucaí
O folclore brasileiro, halloween
O piano agora é teclado, também

O forró de sanfona ficou eletrônico
Fortificante não é mais Biotônico
Bicicleta virou Bis
Polícia e ladrão virou counter strike

Folhetins são novelas de TV
Fauna e flora a desaparecer
Lobato virou Paulo Coelho
Caetano virou um chato

Chico sumiu da FM e TV
Baby se converteu
RPM desapareceu
Elis ressuscitou em Maria Rita?
Gal virou fênix
Raul e Renato,
Cássia e Cazuza,
Lennon e Elvis,
Todos anjos
Agora só tocam lira…

A AIDS virou gripe
A bala antes encontrada agora é perdida
A violência está coisa maldita!

A maconha é calmante
O professor é agora o facilitador
As lições já não importam mais
A guerra superou a paz

E a sociedade ficou incapaz… De tudo.

Inclusive de notar essas diferenças

Luis Fernando Veríssimo

Jul 11 2009

A raposa

“Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que  cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música [...]“.

Antoine de Saint-Exupéry (O pequeno príncipe).

Jul 8 2009

Dicas para escrever

Esta é clássica, mas sempre é bom lembrar algumas dicas para escrever bem:

1- Conforme recomenda a A.G.O.P., nunca use siglas desconhecidas.

2- Deve evitar ao máx. a utiliz. de abrev., etc.

3- É desnecessário fazer-se empregar de um estilo de escrita demasiadamente rebuscado. Tal prática advém de esmero excessivo que beira o exibicionismo narcisista.

4- Evite lugares-comuns como o diabo foge da cruz.

5-  Evite repetir a mesma palavra, pois essa palavra vai ficar repetitiva. A repetição da palavra vai fazer com que a palavra repetida desqualifique o texto onde se encontra repetida.

6- Evite frases exageradamente longas, pois estas dificultam a compreensão da idéia nelas contida e, por conterem mais que uma idéia central, o que nem sempre torna o seu conteúdo acessível, forçam, desta forma, o pobre leitor a separá-la nos seus diversos componentes de forma a torná-las compreensíveis.

7- Estrangeirismos estão out; palavras de origem portuguesa estão in.

8- Evite o emprego de gíria, mesmo que pareça hype!

9- Evite mesóclises. Repita comigo: “mesóclises: evitá-las-ei!”

10- Exagerar é cem milhões de vezes pior do que a moderação.

11- Não abuse das exclamações! Nunca!!!

12- Nunca generalize: generalizar é um erro em todas as situações.

13- Não seja redundante, não é preciso dizer a mesma coisa de formas diferentes; isto é, basta mencionar cada argumento uma só vez; ou por outras palavras, não repita a mesma ideia várias vezes.

14- Seja mais ou menos específico.

15- Não fique escrevendo no gerúndio. Você vai estar deixando seu texto pobre e estar causando ambiguidade; vai estar deixando o conteúdo esquisito, e vai estar ficando com a sensação de que as coisas ainda estão acontecendo.


May 8 2009

Veríssimo

Brincadeira

Começou como uma brincadeira. Telefonou para um conhecido e disse:
- Eu sei de tudo.
Depois de um silêncio, o outro disse:
- Como é que você soube?
- Não interessa. Sei de tudo.
- Me faz um favor. Não espalha.
- Vou pensar.
- Por amor de Deus.
- Está bem. Mas olhe lá, hein?

Descobriu que tinha poder sobre as pessoas.
- Sei de tudo.
- Co-como?
- Sei de tudo.
- Tudo o quê?
- Você sabe.
- Mas é impossível. Como é que você descobriu?

A reação das pessoas variava. Algumas perguntavam em seguida:
- Alguém mais sabe?
Outras se tornavam agressivas:
- Está bem, você sabe. E daí?
- Daí nada. Só queria que você soubesse que eu sei.
- Se você contar para alguém, eu…
- Depende de você.
- De mim, como?
- Se você andar na linha, eu não conto.
- Certo.

Uma vez, parecia ter encontrado um inocente.
- Eu sei de tudo.
- Tudo o quê?
- Você sabe.
- Não sei. O que é que você sabe?
- Não se faça de inocente.
- Mas eu realmente não sei.
- Vem com essa.
- Você não sabe de nada.
- Ah, quer dizer que existe alguma coisa para saber, mas eu é que não sei o que é?
- Não existe nada.
- Olha que eu vou espalhar…
- Pode espalhar que é mentira.
- Como é que você sabe o que eu vou espalhar?
- Qualquer coisa que você espalhar será mentira.
- Está bem. Vou espalhar.
Mas dali a pouco veio um telefonema.
- Escute. Estive pensando melhor. Não espalha nada sobre aquilo.
- Aquilo o quê?
- Você sabe.

Passou a ser temido e respeitado. Volta e meia alguém se aproximava dele e sussurrava:
- Você contou para alguém?
- Ainda não.
- Puxa. Obrigado.
Com o tempo, ganhou reputação. Era de confiança. Um dia, foi procurado por um amigo com uma oferta de emprego. O salário era enorme.
- Por que eu? – quis saber.
- A posição é de muita responsabilidade – disse o amigo. Recomendei você.
- Por quê?
- Pela sua discrição.
Subiu na vida. Dele se dizia que sabia tudo sobre todos, mas nunca abria a boca para falar de ninguém. Além de bem informado era gentleman.

Até que recebeu um telefonema. Uma voz misteriosa que disse:
- Sei de tudo.
- Co-como?
- Sei de tudo.
- Tudo o quê?
- Você sabe.

Resolveu desaparecer. Mudou-se de cidade. Os amigos estranharam o seu desaparecimento repentino. Investigaram. O que ele estava armando? Vieram muitos carros e cercaram a casa. Várias pessoas entraram na casa. Ouviram-se gritos. Os vizinhos contam que a voz que mais se ouvia era a dele, gritando:
- Era brincadeira! Era brincadeira!
Foi descoberto de manhã, assassinado. O crime nunca foi desvendado.

Mas as pessoas que o conheciam não têm dúvidas sobre o motivo.
Sabia demais.

[Luis Fernando Veríssimo]


Apr 14 2009

Megalomania

Contam que Lindaura, a recepcionista do analista de Bagé (segundo ele, “mais eficiente que purgante de maná e japonês na roça”), desenvolveu um método para separar os casos graves dos que são só – como diz o analista de Bagé – “loucos de faceiros”.

Enquanto preenche a ficha, ela dá a cada paciente em potencial uma cuia de chimarrão no formato de um seio. Depois vai anotando: “Quis chupar a cuia em vez da bomba”, “começou a gemer e acariciar a cuia”, “atirou contra a parede”, etc. Assim, quando recebe o paciente, o analista de Bagé já sabe o que esperar. Mas nada preparou o analista de Bagé para a entrada no seu consultório do megalômano de Carazinho. O diálogo entre os dois já começou mal.

- Te deita no divã. – Não deito.
- Te deita, bagual! – Não deito!
- E por que não deita?
- Em primeiro lugar, porque só quem mandava em mim era o meu pai, que já está no Grande Galpão do céu capando anjo pra fazer linguiça. Em segundo lugar, que o analista aqui sou eu.
E com isto o analista de Bagé derrubou o outro com um peitaço e o segurou sobre o pelego do divã com um joelho na omoplata. Gritou:
- Diz qual é teu problema!
- Não digo pra qualquer um!
- Diz senão te arranco esses bigodes dois a dois.
- Todos dizem que eu tenho mania de ser melhor do que os outros, mas eu não acredito neles.
- E por que não?
- Porque é tudo gente inferior.

O analista de Bagé saiu de cima do outro, mas deixou o facão bem à vista, para evitar incomodação. O outro continuou.

- Eu tenho megalomania.
- Não tem – disse o analista de Bagé, brabo. Sabia que era verdade, mas não aguentava fanfarrão.
- Quer saber mais do que eu?
- Sei mais do que tu, teu irmão, tua mãe e teu pai, se fosse conhecido.
Nisso o megalômano de Carazinho subiu em cima do divã, apontou um dedo para o analista de Bagé e ameaçou:
- Olha que eu te transformo em pedra.
O analista de Bagé abriu a camisa e ofereceu o peito:
- Pois transforma. Quero ver. Transforma!
O outro mudou de tática. Ergueu a mão como numa bênção e disse:
- Eu te perdôo.
Aí o analista de Bagé avançou.

Na sala de espera, Lindaura esperou meia hora antes de entrar no consultório. Tinha ordens do analista de Bagé sobre como agir de acordo com os sons que ouvia. “Resfolego, não liga. Gemido, vai pra casa. Grito, te prepara. Mobília quebrada, entra.” Decidiu entrar. Encontrou o megalômano de Carazinho inconsciente embaixo do divã virado, com só metade do bigode. Depois o analista de Bagé explicou:
- Doença é uma coisa. Convencimento é outra.
O outro era “metido a gran cosa”. Mas ele perdera mesmo a paciência quando ouvira o outro dizer:
- Sou o maior megalômano do mundo!
Aparecia cada um.

{O Analista de Bagé, Luis Fernando Veríssimo.}


Mar 25 2009

Veríssimo

Brindes

Marcos e Nádia, Paulo e Andréa.

Jantar na casa de Marcos e Nádia para comemorar a reconciliação de Paulo e Andréa. Os quatro na sala, depois do cafezinho. Marcos e Paulo, conhaque; Nádia e Andréa, licor.

Marcos:
— E então?
Paulo e Andréa coxa a coxa no sofá. Mãos dadas. Paulo, rindo:
— Então o quê?
— Tudo na mais perfeita?
Paulo mostra as mãos dos dois entrelaçadas.
— Olha só.
Andréa:
— Não largo mais desta mão.
Em seguida larga, para ajeitar o cabelo.
— E vocês? — pergunta Andréa.
Marcos e Nádia se entreolham.
— Nós? — diz Nádia. — Muito bem. Maravilha.
— Como a gente briga por bobagem, não é mesmo? — diz Paulo. —Coisas pequenas. O que um diz ou deixa de dizer. Bobagens. O importante é isto aqui.
Mostrando a mão.
— A aliança.
— Não, a pele. O importante é a pele. Uma pele contra a outra. Se é bom, é porque é certo.
Marcos propõe:
— Um brinde à pele.
— À pele.
— À pele.
— À pele.
Nádia:
—  Em nome de todas as mulheres aqui presentes, proponho um brinde aos homens.
— Principalmente aos peludos.
Uma referência à quantidade de pêlos que cobrem o corpo de Paulo.
— Aos pêlos — reforça Nádia.
— Aos pêlos.
— Aos pêlos.
— Aos pêlos.
É a vez de Paulo propor um brinde.
— As mulheres, principalmente às nossas.
Marcos acrescenta:
— Às suas calcinhas penduradas no banheiro.
— Às calcinhas.
— Às calcinhas.
Nádia não brinda às próprias calcinhas. Propõe uma alternativa.
— Aos homens que não jogam nenhum papel fora.
Marcos propõe outro:
— À tolerância. Às mulheres que aceitam seus maridos como eles são.
Nádia:
— A todas as mulheres do mundo que precisam encontrar espaço para guardar os papéis que seus maridos não jogam fora.
Paulo tenta mudar o rumo dos brindes e sugere:
— Ao amor.
Mas Nádia não se contém.
— Anúncio de telepizza. Vocês acreditam? Anúncio de telepizza!
— O quê?
— Esses volantes que distribuem na rua. Ele não consegue jogar fora.
— Não é bem assim… — tenta Marcos.
— E eu que encontre lugar para guardar.
Marcos contra-ataca.
—  E a minha coleção da Placar? Desde o primeiro número. Você jogou no lixo.
— Porque precisava do espaço no armário! Pra pendurar roupa!
— Para as suas calcinhas eu sei que não era. Essas você pendura no banheiro.
Nádia ergueu seu copo de licor ainda mais.
— Às mulheres de maníacos de todo o mundo.
Marcos:
— A todos os maníacos incompreendidos!
Paulo bate na perna de Andréa.
— Está na hora de ir dormir.
***
Depois, na cama, Paulo comenta com Andréa:
— Acho que com o Marcos e a Nádia, ó… Está faltando isto. Pele.
Ele alisa com a mão a parte carnuda do braço de Andréa.
— Sei não — diz Andréa. — Anúncio de telepizza…
— Qual é o problema?
— Francamente, Paulo.
— Não, qual é o problema?
(VERÍSSIMO, Luis Fernando, Sexo na Cabeça, Objetiva, 2002)

Feb 27 2009

A Plástica

dummy 150x150 A Plástica

No início deste ano um assunto envolvendo uma ministra do governo ocupou inúmeras capas de jornais e revistas; desta vez porém, o escândalo foi estético.

A ministra da Casa Civil, Dilma Roussef (candidata do governo à Presidência) resolveu adotar um novo visual e realizou uma cirurgia plástica no rosto, mais especificamente na região dos olhos, segundo seus assessores. Este fato mobilizou rapidamente a imprensa, e foi grande a correria para fotografar o novo rosto, saber o que ela tinha feito, onde foi e quanto custou, etc. Homens e mulheres se interessaram, médicos explicaram, a curiosidade tomou conta do Planalto, e a pauta foi essa: “o que fez Dilma”?

Todo esse alvoroço em torno do assunto trouxe de volta a discussão sobre o tema das cirurgias plásticas, estas imensamente consagradas em nosso país (a ponto de existirem consórcios para tal), desejadas por milhares de mulheres, e atualmente, por homens de diversas idades. Novas técnicas são criadas e difundidas, surgem clínicas por todos os cantos, e o Brasil é o segundo país que mais faz plásticas no mundo, perdendo somente para os Estados Unidos.

Este fato desperta tanto interesse a ponto de ser incessantemente abordado, principalmente pela mídia; basta dar uma olhada na quantidade de programas que abordam o assunto (Dr. Hollywood, Extreme Makeover, etc) para percebermos como o assunto atrai a atenção do público.

As explicações por tanto interesse pela estética corporal e pelas cirurgias plásticas surgem de diversos campos (e cantos). Os mais reducionistas dirão que é apenas a eterna curiosidade humana, que atrai os olhares para o novo, para aquilo que chama a atenção; outros dirão que esta é a estética do momento, quando todos podem ser como sempre sonharam e a liberdade individual é o que importa; ou ainda, que é uma questão de beleza e outros tantos argumentos clichês.

Porém, um fato que pouco percebemos (ou fingimos não perceber), é que somos eternamente insatisfeitos, e vivemos preenchendo buracos em nossas vidas para nos sentirmos melhores. E o corpo, muitas vezes é fonte de escape desta expressão interior.

Preenchemos buracos quando estamos tristes e comemos ou bebemos demais; preenchemos buracos quando gastamos em um shopping, quando substituímos um amor por outro; quando compramos um novo carro, uma jóia ou nos submetemos a  cirurgia plástica. Queremos sempre estar bem perante um Outro, sermos invejados e desejados, assim como desejamos e invejamos (muitas vezes inconscientemente) aquilo que queremos, mas não podemos ter.

Como hoje não basta somente ter, é necessário parecer, imaginem o estrago que faz em alguém encarar uma lipoaspiração e depois ninguém fazer um elogio ou perceber alguma mudança? Ou novos seios que não são notados? Isso traria prováveis problemas… E por que? Porque são os outros que nos trazem a confirmação de que acertamos, que não fizemos besteira, e que realmente ficou melhor (que antes!).

Entretanto, este fato não deve ser visto de forma negativa: tentar evitar isso é impossível, uma vez que vivemos construindo nossas referências pessoais através do  coletivo. Porém ter consciência disto, do papel e influência dos outros em nossas vidas (amigos, namorados, maridos, pais, etc), é caminhar de forma mais segura atrás de uma imagem pessoal que dificilmente é satisfeita, uma vez que os buracos são muitos (e surgem constantemente) pela vida.

E o que isto tem a ver com cirurgia plástica? Simples, pois a estética corporal está diretamente ligada á uma atual sociedade cambiante, e consequentemente, á uma busca pelo corpo ideal que se altera na mesma medida. Na ânsia de parecer mais desejados perante os olhos dos outros, muitos esquecem de seus desejos para corresponder a uma expectativa de alguém, que nem sempre entende o que está por trás de tal mudança.

Neste momento, muitas vezes é preciso confrontar opiniões e bancar situações que demandam certas doses de coragem, e porque não dizer, narcisismo. Mudar algo na vida, nem que seja através de uma cirurgia plástica, é sempre uma atitude que lhe tira de certa inércia em direção ao novo. Como as pessoas são diferentes (e seus motivos também) isso interessa somente a quem deseja mudar, e a mais ninguém.

Vejo o caso de Dilma Roussef: muitos criticaram, outros elogiaram. Se acharam no direito de opinar das mais diversas formas; e sabe o que fez a ministra? Nada! Agiu de forma educada, como se nada tivesse acontecido; como se os porquês da mudança fossem somente dela, e só a ela interessassem.

E fez bem. Foi um bom começo de campanha.


Feb 20 2009

Carnaval (repost)

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Odeio carnaval.

Ok, talvez seja meu mau humor característico que antecede os feriados nacionais. Mas o problema aqui não são os feriados, sempre bem-vindos, mas sim aquele clima de “para onde vou neste carnaval?” que fica no ar.

Começa uns dias antes, quando você se dá conta que o tais dias de praia cheia estão para chegar.

Você lembra do carnaval passado, quando gastou mais do que devia, lembra do seu apartamento ainda sujo de seu último final de semana bebendo com os amigos. Lembra do convite que aquele amigo seu lhe fez para uma festa em Floripa. Lembra de seus amigos, de suas amigas, e das amigas de suas amigas. Lembra daqueles sambas que você odeia “A gente vai se ver na Globo…”. Lembra que só tem isso na tv. E lembra que na cidade não tem nada.

Então, como você só tem duas opções: ou vai ou fica, neste carnaval resolvi que meus ouvidos acostumados com alguns blues dos últimos dias, não mereceriam ser mal-tratados por coisas como “Piririm, piririm, piririm, alguém ligou pra mim?” ou “Tô ficando atoladinha…” e similares. Sem contar, as ruas da praia cheias de um povo que você fica se perguntando de que planeta veio essa gente.

Mas por favor, não deixe que este meu azedume influencie você. Carnaval na praia tem suas vantagens e opções.

Como um bom feriado não é feriado sem uma festinha eletrônica, você sabe que encontrará várias opções de lugares cheios de gente louca de bala, suando e pulando. Os marombeiros com suas camisetas regatas e seus músculos fakes, os jiu-jiteros com suas correntes de prata no pescoço, as patricinhas inacessíveis, as moderninhas se beijando, os novos óculos que alguém comprou em Paris; cada um na sua, curtindo a música transcedental que atinge os chácras e te faz ter uma experiência única. Por favor!

Ou ainda os pagodes. Sim! Que maravilha os pagodes e suas letras. Nada como cantar os males para espantá-los.

Isso durante a noite. Já os dias, estes também são maravilhosos.

Você já acorda com aquela ressaca moral, que te lembra da merda que você fez quando resolveu que iria ali no bar com ela, só para pegar aquela bebida, e do posterior bafo de lança-perfume dela no final da noite que não acabava. Que boas lembranças!

Se você for à praia então, a diversão fica completa: desde a corrida com obstáculos de merda de cachorro, até nado de costas com algas e latas, tudo é uma aventura. Isso sem contar as conversas interessantes do tipo “minha barriga faz um pneu quando eu sento, mas é por causa da posição” que acontecem. Nada como uma boa praia depois de uma festa eletrônica!

E a volta na Br então, é o final perfeito. Você vem dirigindo e lembrando que no outro dia a vida continua, pára, entra na fila, anda, fica se perguntando o que tem na tv a cabo, ultrapassa, pára de novo. Aquela delícia que é dirigir na estrada lotada da volta de um feriado, para depois chegar em casa, tomar um banho e recomeçar sua vida de cabeça erguida: fui, vi e venci.

Por isso tudo, e me perdoe se você for um folião, fiquei em casa. Tinha coisas mais importantes para fazer. Afinal de contas, invadir a Oceania e mais um continente a minha escolha dá um trabalho danado.

(publicado em 2005)

Feb 4 2009

Veríssimo – Quase

Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez, é a desilusão de um quase.

É o quase que incomoda, que entristece, que mata, trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.

Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos “bom dia”, quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz.

A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.

Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.

Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance; preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.

Porque embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

Luiz Fernando Verissimo


Nov 20 2008

Drummond

Por muito tempo achei que ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Porque não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações sem fim.
Porque a ausência, essa ausência assimilada.
Ninguém rouba mais de mim.

(Carlos Drummond de Andrade)


Nov 18 2008

Veríssimo (clássicos)

Palavrões

Os palavrões não nasceram por acaso.

São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia.

Sem que isso signifique a “vulgarização” do idioma, mas apenas sua maior aproximação com a gente simples das ruas e dos escritórios, seus sentimentos, suas emoções, seu jeito, sua índole.

“Pra caralho”, por exemplo. Qual expressão traduz melhor a idéia de muita quantidade do que “Pra caralho”? “Pra caralho” tende ao infinito, é quase uma expressão matemática. A Via-Láctea tem estrelas pra caralho, o Sol é quente pra caralho, o universo é antigo pra caralho, eu gosto de cerveja pra caralho, entende?

No gênero do “Pra caralho”, mas expressando a mais absoluta negação, está o famoso “Nem fodendo!”. O “Nem fodendo” é irretorquível, e liquida o assunto. Te libera, com a consciência tranqüila, para outras atividades de maior interesse em sua vida. Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo “Marquinhos, presta atenção, filho querido, NEM FODENDO!”. O impertinente se manca na hora e vai pro Shopping se encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o CD do Lupicínio.

Por sua vez, o “Porra nenhuma!” atendeu tão plenamente as situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional. Como comentar a bravata daquele chefe idiota, senão com um “é PhD porra nenhuma!”, ou “ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma!”. O “porra nenhuma”, como vocês podem ver, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha.

Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um “Puta-que-pariu!”, ou seu correlato “Puta-que-o-pariu!”, falados assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba… Diante de uma notícia irritante, qualquer “puta-que-o-pariu!” dito assim te coloca outra vez em seu eixo. Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça.

E o que dizer de nosso famoso “vai tomar no cu!”? E sua maravilhosa e reforçadora derivação “vai tomar no meio do seu cu!”. Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: “Chega! Vai tomar no meio do seu cu!” Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua auto-estima. Desabotoa a camisa e saia à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.

E seria tremendamente injusto não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: “Fodeu!”. E sua derivação mais avassaladora ainda: “Fodeu de vez!”. Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando você está dirigindo bêbado, sem documentos do carro e sem carteira de habilitação e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando você parar: O que você fala? “Fodeu de vez!”.

Sem contar que o nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de “foda-se!” que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do “foda-se!”? O “foda-se!” aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Me liberta. “Não quer sair comigo? Então foda-se!”. “Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se!”.

O direito ao “foda-se!” deveria estar assegurado na Constituição Federal.
Liberdade, igualdade, fraternidade e foda-se!

(Luís Fernando Veríssimo)


Nov 15 2008

Veríssimo

A Páscoa

-Papai, o que é Páscoa?

-Ora, Páscoa é… bem… é uma festa religiosa!

-Igual ao Natal?

-É parecido. Só que no Natal comemora-se o nascimento de Jesus, e na Páscoa, se não me engano, comemora-se a sua ressurreição.

-Ressurreição?

-É, ressurreição. Marta , vem cá !

-Sim?

-Explica pra esse garoto o que é ressurreição pra eu poder ler o meu jornal.

-Bom, meu filho, ressurreição é tornar a viver após ter morrido. Foi o que aconteceu com Jesus, três dias depois de ter sido crucificado. Ele ressuscitou e subiu aos céus. Entendeu ?

-Mais ou menos… Mamãe, Jesus era um coelho?

-O que é isso menino? Não me fale uma bobagem dessas ! Coelho! Jesus Cristo é o Papai do Céu ! Nem parece que esse menino foi batizado! Jorge, esse menino não pode crescer desse jeito, sem ir numa missa pelo menos aos domingos. Até parece que não lhe demos uma educação cristã ! Já pensou se ele solta uma besteira dessas na escola ? Deus me perdoe ! Amanhã mesmo vou matricular esse moleque no catecismo!

-Mamãe, mas o Papai do Céu não é Deus ?

-É filho, Jesus e Deus são a mesma coisa. Você vai estudar isso no catecismo. É a Trindade. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo.

-O Espírito Santo também é Deus?

-É sim.

-E Minas Gerais ?

-Sacrilégio !!!

-É por isso que a ilha de Trindade fica perto do Espírito Santo?

-Não é o Estado do Espírito Santo que compõe a Trindade, meu filho, é o Espírito Santo de Deus. É um negócio meio complicado, nem a mamãe entende direito. Mas se você perguntar no catecismo a professora explica tudinho!

-Bom, se Jesus não é um coelho, quem é o coelho da Páscoa ?

-Eu sei lá ! É uma tradição. É igual a Papai Noel, só que ao invés de presente ele traz ovinhos.

-Coelho bota ovo ?

-Chega ! Deixa eu ir fazer o almoço que eu ganho mais !

- Papai, não era melhor que fosse galinha da Páscoa ?

-Era… era melhor,sim… ou então urubu.

-Papai, Jesus nasceu no dia 25 de dezembro, né ?

-Que dia ele morreu ?

-Isso eu sei: na Sexta-feira Santa.

-Que dia e que mês?

-Sabe que eu nunca pensei nisso ? Eu só aprendi que ele morreu na Sexta-feira Santa e ressuscitou três dias depois, no Sábado de Aleluia.

-Um dia depois!

-Não três dias depois.

-Então morreu na Quarta-feira.

-Não, morreu na Sexta-feira Santa… ou terá sido na Quarta-feira de Cinzas ? Ah, garoto, vê se não me confunde ! Morreu na Sexta mesmo e ressuscitou no sábado, três dias depois! Como ? Pergunte à sua professora de catecismo!

-Papai, porque amarraram um monte de bonecos de pano lá na rua ?

-É que hoje é Sábado de Aleluia, e o pessoal vai fazer a malhação do Judas. Judas foi o apóstolo que traiu Jesus.

-O judas traiu Jesus no Sábado ?

-Claro que não ! Se Jesus morreu na Sexta !!!

-Então por que eles não malham o Judas no dia certo ?

-Ui…

-Papai, qual era o sobrenome de Jesus?

-Cristo. Jesus Cristo.

-Só ?

-Que eu saiba sim, por quê?

-Não sei não, mas tenho um palpite de que o nome dele era Jesus Cristo Coelho. Só assim esse negócio de coelho da Páscoa faz sentido, não acha ?

-Ai coitada!

-Coitada de quem?

-Da sua professora de catecismo!

(Luiz Fernando Veríssimo)