Revista Catarina
O fetiche está na moda. Literalmente. Ele ocupa um lugar característico nesta indústria e volta e meia retorna ao cenário sob alguma nova inspiração; tanto que grandes nomes como Versace, Gaultier, Galiano, dentre outros, utilizaram o tema em suas criações. Mas porque este interesse no assunto? E porque o tema incomoda (ou excita) tanta gente? Dificilmente poderemos criar respostas que satisfaçam a todos, uma vez que as pessoas (e suas questões) são diferentes; porém podemos construir algumas versões sobre o assunto.
A palavra fetiche deriva do francês, e significa feitiço. A própria natureza do termo já remete à algo misterioso, proibido; e tudo que é proibido, atrai a atenção. Como o assunto tem grande ligação com o corpo, também tem relação direta com a moda, uma vez que é ela que cobre ou destaca aquilo que deve ser escondido, ou evidenciado. Porém, no imaginário popular ainda existe uma grande associação do tema com a sexualidade, despertando a curiosidade de muita gente. Como isto também interessa para a moda, cabem algumas considerações sobre a percepção erotizada associada ao assunto.
Certa dose de fetichismo é normal, todos temos nossas “partes” preferidas no outro, que não necessariamente podem estar ligadas ao sexo: mãos, pescoço, enfim, aquilo que atrai a atenção e o olhar. Ainda, existe uma forte relação objetal com o tema, onde sapatos, máscaras, algemas, etc, servem como complementos nas mais diversas situações. O fetiche pode ganhar várias expressões de, por assim dizer, investimentos: partes do corpo como pés, boca, cabelos; objetos como sapatos, máscaras e outros; lugares como elevadores e locais públicos; situações como o medo de estar sendo observado; e outras tantas formas que podem ser utilizadas como exemplos. Eis que a mídia e o imaginário popular mastigaram tanto estes objetos e imagens, que o tabu que antes causava o espanto de muitos hoje está na moda, nos filmes, nas campanhas publicitárias e em fotografias famosas. Atés os sexshops vivem cheios de gente que perdeu a vergonha e foi matar a curiosidade.
Fetiche também pode ser algo patológico, e portanto, objeto de estudo da psiquiatria, psicologia e outras áreas. O fetichismo aparece nos desvios, nos vícios e qualquer outra expressão que possa em algum determinado momento, tornar-se um problema para alguém. Por exemplo, algo pode receber uma forma tão intensa de deslocamento do interesse sexual, que por si só pode ter poder de excitação suficiente para que aconteça uma compensação muitas vezes imaginária e solitária. Somado a isto, existe uma imagem do fetichismo criada pela mídia, onde roupas de couro, algemas e pés sendo beijados completam o cenário. Isto faz com que muitos, ao tentarem recriar situações como estas em suas vidas, acabem decepcionando-se com o assunto.
Mudando o foco da questão, hoje o fetiche tornou-se pop: está na música, com Madonna, Lady Gaga e outras; na tv, com o voyerismo dos reality shows e em personagens surreais como tiazinhas e mulheres-melão(!); e até novelas abordam o tema, com atrizes que dançam em mastros e lindas vilãs sedutoras com suas traições e compulsões. Ultimamente o assunto está no cinema, onde os vampiros tornaram-se uma tendência mundial, com filmes que atraem multidões, livros em primeiro lugar das listas, capas de revistas. Praticamente um fetiche adolescente.
Entretanto, ainda existe uma certa resistência por parte de muitos em tratar do assunto, muito porque acreditam que irão fugir dos padrões considerados “normais”, seja na vida pessoal ou profissional. Porém, esquecem que o normal é diferente para todo mundo. Mesmo hoje existindo uma maior liberdade e assuntos como este serem tratados de forma mais aberta e clara, o tema causa um certo desconforto porque ainda vivemos em um tempo em que a igreja católica declara que sexo é somente para fins de reprodução. Por isso não me espanta ter tanta gente recalcada por aí, interessados em criticar os outros nas mais diversas formas, como tiazonas de apartamentos que insistem em falar da vida alheia em busca de suas compensações. Porém, sendo criticado ou cultuado, o negócio é que o fetiche está em alta, seja na vida privada, na moda ou em tantos outros espaços de expressão. Se for bem dosado, pode funcionar como pimenta para muitos, sejam casais atrás de algo novo ou criativos na busca de inspiração para seus trabalhos.
O tema é interessante e ainda tem muitas ideias para serem exploradas, mesmo que isso incomode alguns puritanos. Preferir o comum por medo de arriscar, isso sim, é pura sacanagem.
Texto de Diogo Scandolara.






